Fronteiras

Primeiro foram os churros. Não os churros de Madrid que eu comia com chocolate quente, grosso, igual ao que minha avó fazia, nas duas vezes que estive na Espanha. Os churros daqui, recheados de doce de leite. Depois foram as esfiras do árabe do Largo do Machado. Em seguida, o chocolate Talento lilás, e, por último o capucino diet da Kopenhagen que, graças aos céus, saiu de linha. Esses pequenos hábitos diários atormentaram e enfeitaram minha existência nos últimos anos. Buscando compensar a falta maior, a do cigarro, a melhor companhia de quem escreve. Pelo menos dois quilos acima do peso que defini para mim como suportável, vou abrindo mão de cada delícia que enfeita minha vida. No início

Give me love

George Harrison hoje salvou meu dia. No final dos meus 40 minutos de transport (uma das coisas mais chatas da minha rotina de gorda tentando não ser mais gorda) coloquei o Concert for George e minha raiva passou. Porque tenho cortejado a parte mais sombria da raiva. Aquele lado negro da força em que nos arrependemos de acreditar nas pessoas, de ter investido nelas, de tê-las amado. Um especialista me disse uma vez que as pessoas projetam nas outras seus defeitos, qualidades e desejos. Sem consciência de que estão fazendo isso. Durante muito tempo me recriminei por não perceber as maquinações de pessoas queridas, das pessoas simpáticas, das pessoas legais. Um dia desses entendi, finalment

Samba

A semana passada terminou para mim com praia de dia e filme francês de noite. Ah, os telhados de Paris! Ah, homens que sabem dançar! Ah, aquele maravilhoso Omar Sy fazendo o papel de ilegal senegalês fugindo da polícia e seduzindo mulheres! Ah, o cinema cinema, não cinema literário ou cinema teatral cheio de palavras, o cinema de verdade! Ah, os problemas sociais tratados com crueza e leveza! Ah, o Omar Sy andando em movimentos lentos, em direção à câmera, em direção portanto à plateia, na minha direção! Agora sem brincadeira: além dos telhados, da pele de seda e do cinema, o filme é uma homenagem aos brasileiros, não ao samba, dança, mas ao charme dos homens brasileiros. Apesar de q

Me ensina a ser normal

A coisa mais fácil do mundo é um escritor ser desviado do seu objetivo. Do seu tema quando escreve não ficção. Da sua storyline. É provável que seja porque são tantas as possibilidades que fica difícil inibir o que vai invadindo o campo da escrita . Hoje, eu queria escrever sobre o direito à normalidade. Joguei fora uns 20 parágrafos desviantes antes de chegar até aqui. É arriscado crescer achando que a gente é diferente, para pior. Não estou aqui falando das diferenças individuais. Poderia, mas não estou. Estou me referindo a não ter o direito de aprender o básico, o mínimo que os outros aprenderam. Isso ocasiona desvantagem e condena quem não aprende a ficar do lado de fora das oportun

Ces’t Si Bon

Acabo de assistir ao primeiro episódio da série Aquarius, da NBC, no Hulu. Ganhei meu dia. Ao contrário das pessoas bem resolvidas que eu conheço, adoro descobrir a origem dos meus erros, das minhas ingenuidades passadas. Porque já acreditei em um bocado de bobagens e várias delas tinham por trás pessoas medíocres ou aproveitadoras. Imagina se eu tivesse topado com um Charles Manson pela frente? Acho que não, esses caras fraudes ambulantes nunca fizeram minha cabeça. Os americanos fazem series maravilhosas tratando da cultura deles. Séries dialógicas, bem armadas, ritmo impecável, várias camadas de profundidade, sou só elogios. A TV nos EUA tem grandes roteiristas, showrunners, produtores e

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