Último balde de vida

Existe uma cena em “Marca Humana” de Philip Roth que me parece muito elucidativa. Uma mulher, que foi muito vilipendiada, dança nua ao som de “The Man I Love” - depois de aplicar um boquete no capricho. Ela dança para um homem velho, generoso, inteligente, bom de cama. Eles estão aproveitando o último balde de vida, segundo o narrador.

Eu que sou filha de um homem melancólico (que morreu aos 68 anos) e de uma mulher de extraordinária força de vida que resistiu até os 86 a adversidades variadas, pergunto às mães de hoje: adianta fazer a mãe pura, quase virgem, para os filhos? Adianta fazer a mãe que sofre na mão dos algozes e arrasta correntes para o resto dos dias? A vítima com razão, a quem os filhos se sentem obrigados a render pletesia com direito a gastar fortunas no divã falando mal da própria?

Isso vale para os pais também. Os homens perderam completamente a vergonha de agirem como “mulherzinha”. Muitos acham que isso é feminismo e ficam se lamuriando ou esbravejando, depende da vocação, de todas as injustiças que as mulheres, o mundo, as mães cometeram contra eles.

Isto é perigoso pra caramba, no meu entender. Porque as filhas e os filhos crescem sem parâmetro. Pensam que a mãe foi santa e o pai um coitado. Ou vice-versa. Como os filhos lidarão com os perigos da vida ainda mais que, nos dias de hoje, as famílias são CNPJs e não CPFs?

Minha mãe me tratou a vida todo como um ser humano pensante. E sou grata por isso. Foi imperfeita, me irritou todos os dias da minha existência com as estripulias dela, mas não foi hipócrita. Se eu me deixei engrupir com seus equívocos foi por necessidade minha de buscar que ela (e meu pai) correspondessem aos modelitos dos pais das pessoas da minha idade. Como eles eram incapazes de deixar de serem eles mesmos, perdi muitos baldes de vida nessa busca idiota por algo que não existe. A família ideal.

Minha mãe falava sobre “coisas” comigo (Jane Austen by Emma Thompson). Minha mãe não bancava a “Dinorá, sublime c*” (Jorge Amado) comigo. Na véspera de fazer meu primeiro exame de DNA perguntei a D. Yolanda se existia algum risco de um de nós não sermos filhos de Nelson Rodrigues. Ela respondeu: Não se preocupe, Sonia, infelizmente, eu nunca trai seu pai.

Eu rio lembrando dessa frase. Para mim, esse grau de honestidade intelectual é tudo. “Infelizmente”, hahahahaha.

Do outro lado, onde está agora, quero que D. Yolanda saiba que agradeço por ter sido ela mesma comigo. Por ter me dado o melhor que ela conseguiu.

Obrigada, mãe, por tudo o que passamos juntas. De bom e de ruim. Me ajudou a ser a pessoa imperfeita, mas capaz de amar que sou hoje.



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