Adultério para rir

Qual marca de cigarro você fumaria se descobrisse que seu marido lhe traí depois de 40 anos de casados? E qual seria o cigarro se descobrisse que, além disso, o caso é com o melhor amigo e rola há 20 anos? Jane Fonda deu entrevista a um jornal brasileiro dizendo que os dois homens têm um caso secreto durante 20 anos por causa da homofobia da nossa sociedade. Fiquei escandalizada com a falta de senso crítico. Gays omitem amantes durante 20 anos e são vítimas, homens hetero omitem amantes e são canalhas machistas? Grace e Frankie não é isso. A série tira sarro de todas as situações criadas pelo amor. Bolo de casamento, adultério, fim de casamento, despedida de solteiro, filhos adultos… Lógico. Uma a sala de roteirista conduzida de forma competente deixaria de exercer o diálogo entre as verdades? No caso de comédia, deixaria de zombar das verdades? Não na TV norte-americana nos dias de hoje. Se o roteirista é bom tem no chip a informação de que para provocar riso inteligente é preciso mais de um ponto de vista na roda.E nunca perder de vista a história. Grace e Frankie me fez lembrar que o adultério hetero vem sendo contado em verso e prosa desde a Ilíada de Homero. Publicada pela primeira vez no século oito antes de Cristo. Drama e comédia sempre giraram em torno da infidelidade hetero. O adultério gay ainda não havia saído do armário no gênero comédia. Saiu agora. E os filhos? Como os filhos vão lidar com a revelação? “Tio Robert é gay? Mamãe, não consigo imaginar Tio Robert e papai na cama… Não, não, agora eu não consigo parar de imaginar tio Robert e papai”, treme o filho sequelado que acabou de voltar da reabilitação. Imagino que este tipo de humor escandalize muita gente, não só a turma do que têm horror ao homossexualismo. Do meu lado, sempre achei mais estranho pessoas imaginando os parentes na cama do que se os parentes são gays, hetero, adúlteros. Mas eu não devia estranhar. A vida sexual das pessoas próximas é motivo de atenção de muita gente. Eu rolei de rir o gay pós hippie como Sol, feministas como Frankie ou conservadoras como Grace em situações extremas, sem cair no drama. Que proeza para um roteirista! Não cair na comiseração, na vitimização dos personagens, na autobiografia barata! Ninguém dá tiro, ninguém ateia fogo às vestes, corta os pulsos, ninguém toma os filhos dos adúlteros como costuma acontecer no drama. É claro que o fato deles eles terem mais de 70 anos ajuda. Quem vai querer jogar para o alto tudo o que ainda pode tirar da vida? Um bocado de gente idiota, eu sei. Mas gente idiota é idiota desde os 20. Talvez nasça idiota, sem capacidade de refazer pontes, reaprender a andar ou fazer loucuras como pular sem rede de proteção, preservando, no entanto, casa de praia e cartão de crédito. Pular sem rede e ficar sem dinheiro já cai no drama e a storyline não é essa. Grace posando de Sarah da série The Killing? Nem pensar. Ah, como é bom se encontrar roteiristas obedientes ao formato e ao gênero escolhidos! A hippie comunista da Frankie é uma surpresa só, inclusive porque se revela mais apegada do que a Barbie interpretada por Jane Fonda. Aliás, eu não sabia que a Jane Fonda conseguia ser engraçada. A pensata da série é a pergunta feita pelo adultero mais conservador: O custo é terrível, mas é mais terrível comigo ou sem mim?

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