Ladrões de bicicleta e contadores de histórias

Hoje eu tive uma conversa de 350 palavras com meu amigo Marcos Caetano sobre uma sucessão de pequenos acidentes muito dolorosos que se abateram sobre a beleza de três mulheres Rodrigues, há muitos anos. Ontem, eu tive uma conversa de algumas horas com José Luiz Rocha, escritor premiado da Flupp e com Valnei Succo, jovem produtor cultural do Observatório das Favelas. Eles contam histórias o tempo todo e escutam bem histórias. Talentos raros. Nenhum dos dois eventos me preparou para o email que recebi de recusa de um projeto meu. Porque a pessoa que recusou não era nem para ter recebido o projeto. Recebeu porque o dono do dinheiro enviou o projeto para alguém que me conhece – e ao meu trabalho – há anos e essa pessoa repassou para quem tinha maior chance de recusar. Vitorio de Sica, em 1948, fez um filme sobre um trabalhador vivendo numa Roma dilacerada pela fome, pelo desemprego do pós guerra. O personagem arranja um trabalho possível, mas falta uma bicicleta. A mulher dele empenha os lençóis da casa para alugar uma, mas a bicicleta é roubada. Ele busca a bicicleta junto com o filho pequeno. Até que, desesperado, tenta roubar para não perder o serviço. É pego e humilhado. Não servia para ladrão. O personagem que roubou escapou impune, pelo menos daquela vez. Algumas pessoas, talvez a maioria, assistem filmes, séries de TV, leem livros e as histórias passam por elas como se não tivessem nada a ver com a vida que levam, o mundo em que vivem. Eu assisto séries, filmes, leio livros porque narrativas me explicam o mundo. E explicam a minha pessoa no mundo. Na falta de talento para roubar e escapar impune, na falta de talento para ter poder e dinheiro, me agarro à narrativa. A narrativa é um trabalho que faço com menos esforço do que outras tarefas. A tarefa, por exemplo, de entender a discriminação. Por que um projeto que poderia ajudar milhares de pessoas a fazer o que eu faço tão bem, entender a máquina narrativa e usá-la, foi passado adiante para quem tinha mais tendência a recusar? Por que a pessoa não bateu logo o martelo e apoiou o projeto nas condições que a favorecessem? Porque eu, Sonia Rodrigues, sou considerada por algumas pessoas que sabem se colocar no mundo, uma criatura arrogante. Posso fazer uma lista de pessoas – com nome, RG e CPF – que já recusaram projetos meus que poderiam beneficiar jovens que estão se perdendo na escola e na vida porque me consideram arrogante. Já fui recusada por: uma jovem que decide onde se coloca a grana de um multi milionário brasileiro, um subsecretário municipal de educação, a equipe pedagógica de uma secretária estadual, o estafeta de um ministro, alguns professores de universidades públicas, um ou outro ongueiro, a toda poderosa de uma fundação todo poderosa… A lista é infindável. Talvez elas tenham razão. Sou do tipo que não aguenta com um gato pelo rabo, mas enfrenta o rojão, como dizia minha mãe previa quando eu era pequena. Sou do tipo que tem orgulho da origem e não esconde o passado inglório. Porque também tenho orgulho de ter sobrevivido a tudo o que sobrevivi. Devo parecer insuportável para algumas pessoas. Por que estou contando isso aqui, hoje? Primeiro porque ainda me escandaliza um produto que pode ensinar pessoas a escrever seja recusado. Porque todos os que têm dinheiro e poder repetem, até a náusea, que o Brasil precisa investir na juventude. Desde que seja do jeito deles. A escrita poderia contribuir para minorar a falta de oportunidades, poderia diminuir a raiva de quem se acostuma a bater com a cara em muitas portas fechadas. Estou contando, muito de passagem, o que aconteceu comigo hoje porque quem escreve não mata. Não porque quem escreve seja melhor. Não. Apenas quem escreve consegue colocar a raiva e a tristeza de ser recusado para fora. Qualquer um tem o direito de recusar um livro, um roteiro, uma oportunidade de trabalho. Qualquer um. Pelos motivos mais concretos, por capricho, por preconceito. Do que serve a escrita? Serve para registrar e consolar quando nos recusam oportunidades. Em tempo, meu projeto recusado tem um dispositivo que permite saber quem examinou. A equipe que recusou não examinou nada. Eu não vou contar para os chefes. Já contei aqui. Cada um que administre os seus pares.

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