A mulher da Califórnia

Eu conheci uma mulher que se orgulha de ter sido amada com um amor de novela. Como To know you, is to love you by BB King. Como Love you blue, cantada pelos Beatles. E, mais do que tudo, igual Here come the Sun by Nina Simone em Scandal. Eu lhe perguntei qual era a vantagem de ter sido agraciada com um sentimento tão intenso se esse amor não está ao seu lado. Para a mulher da Califórnia o amor é como o espectro patrono do Harry Potter. Quando o dia a dia pesa, ela abre a porta do cofre onde as lembranças estão guardadas bebe algumas gotas, reposiciona as adversidades. Tem sentido o que ela diz. Situações difíceis são apenas asperezas da vida. O amor é, como bem sabe Shonda Rhimes, um bálsamo. Basta a gente ligar para dizer alô que as cinzas se reorganizem e comecem a pulsar de novo. Melodramático, Soapy? Provavelmente, mas a vida é soapy quando gente tem intensidade. Por que então ela não está junto desse amor intenso como as mais bobas das músicas? Nós não sabíamos preservar o amor, ela admitiu sorrindo. Mas não foram as circunstâncias?, insisti para entender, acreditando que talvez ela ele fosse um caso de “But to Love me, is not the way you see”. Não, ela respondeu, qualquer circunstância poderia ter sido negociada. Foi incapacidade nossa mesmo. Perder uma alma complementar não tira pedaço, não dá raiva? Já deu muita raiva, ela disse. Dele, de mim, de todos que podem ter contribuído para o fim, por inveja, conservadorismo, ciúmes. Depois, concluí que boas memórias fazem melhor para a pele do que desmoralizar o amor. Um amor desses acaba? Essa pergunta ela não respondeu.

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