Os senhores não percebem que estão me magoando?


Fui assistir, quinta passada, ao espetáculo de final de ano da CAL, a convite de Leonardo da Selva. Era a montagem de O capote de Nikolai Gogol, adaptado por Anna Paula Borges, Eduardo Vaccari e pelo próprio Leonardo.

Fiquei feliz por ter deixado tudo de lado para assistir a jovens tão talentosos e bem dirigidos. Nessas horas, orgulho do que se faz de bom, no meu pais, no meu estado, em minha cidade. Orgulho dos nossos artistas, já que está difícil ter orgulho dos lideres.

Assistir um texto de Gogol me toca especialmente porque me faz pensar que se os autores russos da época ou outros, como Andersen, usassem fluxocetina não escreveriam o que escreveram. Porque o sentimento que me passa “O capote”, de um, ou “A sombra”, de outro, é do quanto esses autores percebiam a capacidade do ser humano ser cruel com quem não lhe faz nada. Essa percepção apavora.

“Os senhores não percebem que estão me magoando?” pergunta o pobre copista de nome impronunciável para seus algozes.

Eu não sei o que mexeu mais comigo durante o espetáculo. Se foi a impudência de quem não dá a mínima para que o outro fique magoado ou morra de frio. Ou se foi a ingenuidade da vitima que espera que os algozes tenham consciência de que estão magoando ou tomando a única coisa que garantia a vida no inverno russo. O capote.

De qualquer forma, o teatro, para mim, está no território do sagrado.

É a narrativa dramática (incluindo aí as séries de TV) que nos leva a única verdade possível, a verdade plural. Os livros também fazem isso, mas a narrativa dramática conta atores encarnando personagens, em combinação com o talento de muitos profissionais (inclusive os autores) por trás da cena. O choque para os nossos sentidos é maior.

Dito isso, fico pensando se conseguem dormir os executivos que não compraram sirenes para Mariana, não autorizaram a conservação e os reparos da barragem que cedeu, causando mortes e destruindo o Rio Doce. Eu me pergunto se eles não perceberam o quanto poderiam prejudicar os que estavam apenas seguindo suas vidas.

Eu me pergunto também como seres humanos podem, em nome de qualquer causa, atirar não nos seus inimigos diretos, mas em qualquer pessoa. Independente das pessoas estarem trabalhando, bebendo, comendo, se divertindo. Sem nenhuma relação direta com sua causa. Nesse ponto, me atrevo a dizer, zero interesse em contribuir para a indústria farmacêutica, que muita gente está precisando ser medicada nesse mundo. Para ver se melhora a inveja, o ressentimento da felicidade alheia. Para não se esbaldar com o sofrimento de inocentes que, mortos, não podem nem se queixar.

No mais: tenho orgulho de ter opiniões claras contra brasileiros que prejudicam brasileiros ou contra estrangeiros que tentam destruir os valores que me são caros. Brasileira e turista eventual, tenho orgulho de tudo o que Paris representa na História desses valores. Tenho orgulho do meu amor pelos telhados de Paris. Pela beleza de Paris.

Por tudo isso: Vive la France!

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