O amante japonês



As pessoas pensam que vulnerabilidade é se deixar ferir, abater pelo amor.

Qualquer um, indistintamente, pode ser ferido ou abatido pelo amor. Só não se deixam abater pelo amor aqueles seres humanos que são abatidos antes por drogas, doenças, desejo de poder, apego às convenções, inércia.

Penso que vulnerabilidade é outra coisa.

Pessoas mais confiantes, mais doces, mais inquiridoras, mais conciliadoras se tornam vulneráveis com maior frequencia, observo. É como se a demonstração dessas características funcionasse como um atrativo para predadores.

Pessoas mais insistentes, mais controladoras, mais vaidosas também. Já vi tanta gente forte perder pedaços no afã de insistir em convencer ou controlar circunstâncias ou, apenas, por não suportar a desaprovação de seus pares.

Talvez vulnerabilidade seja uma questão de escala de qualidades e defeitos. Escore 2 de doçura, confiança nos outros ou tendência a conciliação, vulnerabilidade potencial 1. Vaidade 10, necessidade de controle 9, insistência 7, vulnerabilidade potencial 25.

Como nos Roleplaying Game em que os jogadores vão colocando pontos em Força, Destreza e por aí vai.

Estive numa festa de Reveillon excelente em dia 31. Entre outras coisas porque lá estavam Simone e o casal Milli e Bruno. Milli não sabia da minha profissão e assim que soube conferiu os títulos, comentou, enviou um email reforçando o contato. Vejam como escritores são carentes. Digo isso, sem a menor vergonha. Eu podia ser jornalista, dentista, médica, detetive particular, qualquer coisa que me desse poder e não precisasse me expor. Mas, ao contrario de outras profissões, nada na vida me preparou para deixar de publicar e eu não escolho ser escritora. Escrever é meu sanatório de bolso.

Simone estava com a 5a temporada de Homeland e se juntou a isso O amante japonês e meu fascínio sobre o quê leva (ou não) a certo tipo de vulnerabilidade crônica e aqui estou.

O livro mais recente de Isabel Allende é sobre aquilo que Cole Porter cantou como True Love. A coisa rara que poucas pessoas encontram e que, algumas dessas poucas preservam e mantém. Independente das circunstâncias.

Carrie Mathison e Isabel Allende me ensinaram, mais uma vez, sobre a complexidade e os perigos vulnerabilidade feminina.

Tem transtorno bipolar de humor, é mandona, apaixonada por um homem casado, ou por um homem de outra etnia, de outro planeta, um homem da tribo inimiga, uma mulher religiosa que resiste a homossexualidade, é apaixonada por alguém que jamais conseguirá estar ao seu lado, é viciada em drogas, coloca em risco a vida dos outros?

Mulheres que possuem essas características, enfrentam essas circunstâncias serão vulneráveis se não souberem quem são de verdade ou se não souberem assumir as conseqüências de serem o que são.

A vulnerabilidade feminina ataca mais as mulheres que insistem em convencer as pessoas a aceitar o que elas são, fazem ou sentem.

Ou então atinge as que precisam controlar o que os outros são, fazem, sentem. Isso é o que as torna vulneráveis.

Por isso são abatidas em pleno vôo, muitas vezes. Outras passam a vida acreditando que foram apenas vitimadas pelos outros, sem conhecer a própria vulnerabilidade. Ou invejando as que foram adiante, independente das adversidades.

Alguns pensam que o contrario da vulnerabilidade é a dureza de propósitos. Não é.

Dureza de propósitos é a vantagem maior das pessoas que deixam de lado os riscos da lucidez e o peso da integridade.

Para voltar ao universo das séries,


Carrie Mathison e Daenerys Targaryen são íntegras, Catelyn Tully, Olivia Pope têm dureza de propósitos.

Alicia Florick é vulnerável, apenas. Competente, mas vulnerável. Vaidosa demais, não suporta a idéia de ser desaprovada pelos filhos, insiste num casamento que já deu o que tinha que dar, quer controlar cada aspecto da própria vida.

O amante japonês é mais um exemplo, dentro da obra de Isabel Allende, do privilégio que algumas pessoas têm de encontrar a “alma de alma mia”.

O perigo a ser evitado é o de confundir grandes amigos, cúmplices, ficantes ou namorados bons de cama, maridos exemplares com esse amor sem tamanho. Não existe maior vulnerabilidade do que não saber reconhecer a diferença.

Últimos textos
Arquivo

© 2015. Site desenvolvido por Agência e-Plan