Meu herói sou eu


Flaubert escreveu: Mme Bovary c' est moi.

Ando pensando muito sobre quem realmente importa. Os que nos ferem? Os que nos ignoram? Os que nos amam? Os que nos passam para trás? Os que podem nos dar coisas boas? Os que podem nos punir?

A pessoa que realmente importa, para mim, é aquela que consegue ser herói de si mesma.

Muitos passam pela vida como: coadjuvante, juiz da vida alheia, claque, vítima kamikaze, algoz kamikaze, massa de manobra, bucha de canhão, idiota praticante.

Nove papéis possíveis para qualquer personagem.

Eu sei. Já representei todos.

Existem também os que passam pela vida se achando esperto, achando que a casa nunca vai cair em suas cabeças. Esse papel me orgulho de não ter assumido. Conheço bem o preço da hybris e sei o tamanho do meu carma. Se eu erro às oito da manhã, sou punida pela Vida às 8:15 h. Seria burrice achar que escaparia impune, nem tento.

Quando não tinha consciência de que estava sendo coadjuvante, vítima, algoz, massa de manobra (meus ex-papeis mais frequentes) eu atribuía aos outros a responsabilidade por minha tristeza, raiva, insucesso.

Jorge Semprun colocou na boca de um de seus personagens: Camarada, vou fazer sua auto crítica.

Sempre lembro dessa frase como uma das coisas que preciso evitar na vida. Fazer a auto crítica de alguém.

Porque a única pessoa a quem vale a pena criticar, de verdade, sou eu. Criticar a mim mesma tem algum sentido, pode ter alguma eficácia.

Onde errei? Por que estou me sentindo tão mal com esse erro? Dá para refazer o caminho ou a ponte? Preciso abandonar algum comportamento? Preciso desistir de algum relacionamento ou padrão?

Criticar os outros, a não ser os contratados ou os eleitos, é de uma inutilidade de doer.

Aprendi também que é muita pretensão avisar aos outros sobre o próximo erro deles.

O que adianta avisar:

Não confie em quem incita a ira, não confie em quem bajula, em quem fala mal de quem amamos. Do que adianta dizer que a ira, a bajulação, a maledicência vão acabar nos atingindo?

Não siga com esse comportamento, costuma trazer prejuízo para a saúde, o sexo, o bom humor, a inteligência circulante?

Não adianta avisar e isso é o mais difícil na trajetória de herói de si mesmo: aceitar que, muitas vezes, somos espectadores do nosso destino e do destino daqueles por quem torcemos.

O mais legal de tudo isso é que se eu fico atenta ao que dá ou não dá para fazer em relação ao mundo e às pessoas, me divirto muito mais. Quase todas as coisas que me aborreceram muito na vida, acabam se provando insignificâncias sobre as quais eu não tinha o menor poder de interferência.

É fácil para mim fazer coisas, mudar coisas, refazer situações. Basta que eu observe para que lado sopra o vento que leva embora o que é ruim e traz o que me falta. Porque não tenho vocação para ser estoica e infeliz.

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