Os que não conseguem pertencer

Existe um filme imperdível em cartaz em poucas salas no Rio de Janeiro. Loucas de alegria é o título inadequado. É provável que saia de cartaz amanhã, por isso saio da mudez que me impus nos últimos meses para comentá-lo.

O filme é melhor do que Thelma e Louise. Porque evita a armadilha que aprisiona alguns escritores de atribuir a traumas, a agressões externas, homicídios, suicídios, fugas.

O filme é sobre a amizade entre malucas e a amizade de alguns profissionais da saúde mental por malucas. Muito bom.

No entanto, uma conversa ontem com uma amiga (não vou citar o nome, pode ser que ela se constranja de ser citada num textão) descobri uma diferença interessante entre as pessoas normais e as pessoas malucas. As normais precisam (e conseguem) pertencer. A grupos, família, gangues, partidos. Os malucos não conseguem pertencer a um lugar. Ficam vagando, tentando interagir do seu modo, às vezes, canhestro, às vezes, agressivo, reativo, inadequado.

Outra conversa, também ontem, com outro amigo me abriu mais uma janela na alma. Os malucos criam em torno de si uma aura que a falta de palavra melhor meu amigo chamou de radioatividade. E os normais têm enorme dificuldade de entender e conviver com essa aura.

Quem me conhece muito sabe que frequentei, felizmente como visitante, cadeia e clínicas psiquiátricas muitas vezes.

Frequentei também, não apenas como visitante, redações de jornais, escolas, universidades, assembleias estudantis, de bancários, de movimento sem terra, reuniões da classe média alta em apoio à democracia, na soma total, milhares de vezes. Milhares de horas.

Quem me conhece melhor, sabe que me sinto muito mais confortável perto de personagens do que de pessoas que acham que são reais. Coitadas!

Depois de assistir ao filme, fiz um balanço mental de minhas observações de como as pessoas normais se comportam na defesa dos seus interesses ou na defesa dos interesses dos pobres coitados (malucos ou não) que não têm a sorte de ser normais como eles.

Eu, por princípio, evito ler críticas de especialistas em cinema antes de assistir a filmes. Mas, quando faço a besteira de ler depois, me deparo com alguma que tende a colocar a obra de ficção dos outros dentro das suas caminhas de Procusto.

Adoro a imagem de minúsculos Procustos brasileiros esquartejando a ficção alheia. Não sabe o que é? Compra Mitologia do Junito de Souza Brandão. Ou vai na Wikipedia e não conta pra ninguém.

Ah, porque o filme segue o modelo clássico narrativo, ah, porque defende a institucionalização da loucura....

Mentira. O filme conta como os malucos têm dificuldade de lidar com a realidade e com a pressão social. Mostra o prejuízo que os malucos podem causar a si mesmos e, inclusive, à sua prole. Mostra como a compaixão é rara em relação aos malucos e à sua prole.

Voltando para a chave que minha amiga me mostrou. Os normais conseguem e precisam pertencer. Eles se juntam em grupos, seguem os grupos, lideram os grupos. Como eles defendem que são normais, bons, sadios, do lado da Verdade, quem não pertence ao grupo deles é maluco ou errado. Se os normais pudessem, exterminavam todos os que não seguem sua normalidade. Eu sei, eu tentei ser normal uma época. Felizmente, fui reprovada.

Acho que tenho um pouco de medo das pessoas que precisam tão desesperadamente pertencer a alguém, à alguma coisas. Pessoas que precisam acreditar sem dúvidas.

Acho que não sou boa para conviver muito de perto com essas pessoas.

Deve ser por causa da radiotividade adquirida no contato com os que não conseguiram ficar longe do crime, da loucura, da ficção compulsiva.

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