Transparência


Ontem, escutei uma frase que é o espírito do nosso tempo: só trabalho com amigos, se for bom, mas for chato, não quero.

Depois li no Facebook um texto que pede aos avós que não ensinem os netos a esconder dos pais que ganharam pirulitos. O texto se chama Respeitem os pais e parece fazer relação entre as crianças esconderem que ganharam doces dos avós e, mais tarde, esconderem ataques de pedófilos. O lema (bem intencionado) é não acostumar crianças com segredinhos. Mais do que isso: o texto diz que se você (Avô? Avó?) não concorda com o que os pais mandam a criança fazer, respeite. Não importa se concorda ou não. Respeite.

Qual o sentido disso? Porque um ser humano adulto que colocou filhos no mundo, criou, apoiou deve respeitar o que acha errado?

Deixa eu contar um segredo para os pais de crianças hoje: filhos escondem coisas dos pais. Não precisa de avós, tios, adultos para esconderem. Filhos têm segredos. Geralmente, com seus pares. Por isso, acontecem coisas muito ruins, às vezes.

Mais uma dica: ao contrário do que muita gente acredita, o dilúvio, aquele dilúvio, o de Noé, não ocorreu antes de surgirem os pais que têm 30/35 anos hoje. Os jovens casais não são os novos primeiros habitantes da Terra.

Eu sei que alguns seres humanos não têm espelho em casa e por isso não olham os seus segredos. Sei também que muitos seres humanos são desmemoriados e só têm memória para os maus feitos dos outros.

Tenho até o atrevimento de suspeitar que a onda de ressentimento que assola o planeta se deve a isso. O outro é culpado de tudo. Dos dentes cariados das crianças pequenas às alianças espúrias que fizeram com que nosso país esteja balançando na beira de um precipício.

Ressentimento e Cumplicidade são as consignas dos dias de hoje. Deveriam criar uma camiseta com esses dizeres: só trabalho com amigos, outra: só lido com gente que me é simpática. Outra ainda: Meus filhos são minha propriedade, não os influenciem.

Eu fui criada com avó. Eu trato minha mãe de senhora. Eu comia pão com manteiga e açúcar na casa de minha avó materna. Eu nunca proibi as avós, as tias dos meus filhos de discordarem de mim na educação deles. Nem de estraga-los de mimos nas visitas. Quando eles voltavam para casa, eu os enquadrava. Sem discutir com ninguém.

Felizmente não existia Facebook quando criei meus filhos. Não fiz parte de nenhum grupo me dizendo quanto tempo eu deveria amamentar.

Ou dizendo que eu deveria vestir meu filho de saia e obrigar minhas filhas a usar chuteiras para que eles assim fossem sexualmente libertos.

Nunca permiti que os grupos aos quais eu, infelizmente, andei encoleirada durante alguns anos, me dissessem como lidar com meus afetos, de quais livros ou de quais filmes gostar.

Independente até o osso, influenciada em cada pedaço da minha alma pela independência de minha mãe aquariana, por Monteiro Lobato e por Nelson Rodrigues, não tenho a menor intenção de me submeter ao que eu não concordo.

Não me submeto do mesmo jeito com que fiz minha vida inteira. Cortando sem romper. Dizendo, mentalmente, o que pregava meu avô espanhol: si, si, toca, toca.

Eu sou uma pessoa transparente. Se alguém estiver dispensando, tem quem queira.

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