Sexo Tântrico


Uma vez, eu tinha 17 anos, fui com uma colega da PUC-Rio à Vitória da Conquista para convidar, convencer Gilberto Gil a cantar num show estudantil no João Caetano. Eu havia sido recém recrutada para a igreja, digo, partido, um dos partidos comunistas, e estava certa de que nada mais honroso do que desafiar a ditadura num show musical.

Gil nos escutou pacientemente, mas recusou. Para nosso espanto, ele disse que não acreditava ser a hora de um show como aquele, que era o momento de meditar em saídas que, certamente, surgiriam, era o momento de estudar alguma coisa. Até o estudo de genética dos ratos valia.

Não preciso dizer que aquilo pegou muito mal na Vila dos Diretórios. Como nós éramos intolerantes e desrespeitosos com a opinião de gente que não estava contra nós! Éramos arrogantes até dizer chega!

Éramos?

Frente à campanha horrível que assisti no primeiro turno das eleições no Rio penso hoje como Gil. Vale mais a pena escrever, considerar, pesquisar o sexo tântrico do que confrontar as pessoas que, apesar de não viverem uma ditadura, aparentemente, desejariam que estivéssemos numa.

Isso me ocorreu lendo um bom projeto de série para o qual fiz doctoring um dia desses. Por causa da confidencialidade não vou entrar em detalhes, mas era um projeto em que o sexo tântrico tinha seu papel.

O bom de fazer parte da máquina de Contar histórias é que a gente aprende que tudo passa, menos as histórias. Passam os pastores, passam os rebanhos, passam a certezas histéricas ou ressentidas, mas as histórias sobrevivem.

Voltando ao sexo tântrico, não é extraordinário isso? Ficar transando horas e horas sem se preocupar com um resultado externo imediato?

É possível que eu não tenha entendido direito o conceito da série, como também não entendi a razão de tantas pessoas bem intencionadas negarem todas as evidências levantadas nas argumentação políticas. O que eu vi, no primeiro turno, foi a falsificação de evidências contra qualquer coisa que fosse diferente das posições defendidas.

Ah, vi também na página do Marcelo que dois jovens estavam distribuindo santinhos numa Zona Eleitoral aqui no Rio. Quando dois PMs disseram que não podia, os jovens cabo eleitorais fora da lei jogaram os santinhos para cima e começaram a chamar os PMs de coxinhas, de fascistas.

Quando tinha 17 anos, eu acreditava que só a extrema direita negava evidências flagrantes. Soldados da PM dificilmente são coxinhas e tentar cumprir a Lei não faz deles fascistas.

Hoje, quando abrir a boca para falar de política é briga na certa, torço para que isso passe. Apesar do temor que a situação pode até piorar por falta de entendimento.

Depois, queridos arrogantes, não se queixem.

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