Para que serve a ficção ou o zen budismo?


Aceito, entrego, confio, agradeço. Grande frase. Ou um grande ensinamento.

Repeti muitas vezes que o Orgulho é um direito dos multimilionários, dos sociopatas e dos perdedores.

A paranoia raivosa (para mim o verdadeiro nome do pecado do Orgulho) para consumo diário, para o varejo, só combina com o fracasso. Para o comum dos mortais. Como eu.

Atitudes do tipo “só eu estou certo” ou “ tenho raiva desses seres desprezíveis que me maltratam, me contrariam, me criticam, me perseguem” são armadilhas. Para quem foi pobre, para quem esteve em desvantagem social, para quem até hoje ignora como se colocar nos lugares de poder. Como eu.

É provável que me reste apenas passar a vida trabalhando de sol a sol. Como uma formiguinha. Beleza. Eu adoro trabalhar com ficção.

A raiva, minha experiência de vida me ensinou, só serve como motor de vingança. E mesmo assim, sem paranoia.

“Ah, eles não querem que eu estude? Muito bem, qual o preço a pagar para continuar estudando?”. “Ah, querem destruir minha reputação, meus sonhos?”. Muito bem, o que eu preciso fazer para neutralizar a avalanche do Mal?

Evitar o cultivo do orgulho facilitou muito minha vida.

Desconfiar da hipótese de que a galinha do vizinho fosse melhor do que a minha também. Porque existe isso. Ter inveja do emprego dos outros, do dinheiro dos outros, do amor dos outros, da vida mansa que alguns têm, não ajuda.

Conheço de perto muito dos personagens das séries e dos filmes que assisto.

Annelise de How to get away with murder. A mulher que acha que sua família não é boa o bastante e aposta tudo num outro mundo.

O general paranoico raivoso de Designated Survivor. A mãe instável e desacreditada de Stanger Things. A amiga passional, filha masoquista e mãe abaixo da crítica, protagonista de Much Loved.

Nasci e cresci numa tribo capaz de muitos erros, mas aceito que exista um motivo para estar entre os passionais, voluntariosos, paranoicos, transgressores.

Aceitar eu aceito, porque confio que nada como um dia atrás do outro com uma noite pelo meio. Entregar eu entrego, quando desisto de convencer pelo argumento ou pelo exemplo.

Agradecer é mais difícil.

Como posso agradecer aos que me fazem sofrer? Isto é o que estou tentando aprender com o livro O grande silêncio de Alcio Braz, psiquiatra e monge zen budista.

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