Merli: a série


A onipresente Netflix tem duas comédias juvenis, seriadas, feitas na Europa, no ar. A catalã Merli e a dinamarquesa Rita.

As duas demonstram as diferenças culturais entre Europa e os Estados Unidos, país de origem da Netflix. E, para minha tristeza, demonstram o quanto nós, no Brasil, precisamos estudar mais.

A professora protagonista da dinamarquesa fuma, faz sexo, é politicamente incorreta e consegue fazer os alunos aprenderem.

Merli, a catalã, é a prova viva de que roteiristas não podem ser ignorantes. Outras profissionais talvez sobrevivam sem conhecer o geral/essencial do seu objeto de trabalho, sem repertório. Um roteirista, não.

Nas mãos de um roteirista que não domine a diferença entre Comédia e Drama, as temáticas tratadas na série virariam um dramalhão do pior tipo. Mais: seria um dramalhão tirando onda ‘I wanna be Ken Loach”, o que, em geral, é um insulto ao homenageado.

Professor de Filosofia numa escola pública, nos dias de hoje, na Catalunha? O roteirista precisa saber muito bem qual é a encomenda para entregar direito.

Professor de Filosofia, substituto, mais de 50, hetero, divorciado, acha imprescindível ser fiel à Filosofia e a si mesmo em escola pública, no ensino médio.

O que é imprescindível, do ponto de vista dramatúrgico, para um personagem mostrar, por ações e falas, o que é ser fiel à Filosofia?

E para ser fiel a si mesmo?

Na Europa? Na Catalunha?

O tempo todo eu, assistindo à série, ficava pensando: agora eles vão cair em “Sociedade dos Poetas Mortos”. Não caíram, apesar da clara inspiração. Além de “Ao mestre com carinho” , claro.

Penso que posso me atrever a afirmar três coisas pelo roteiro da série Merli: os autores estão no campo da esquerda catalã: tratam de forma progressista e dialógica o capitalismo. Os autores gostam de sexo, não militam contra casais de qualquer tipo. Os autores não são masoquistas. Fizeram uma série possível de ser dublada em espanhol (imagino a felicidade nacional na Catalunha!) vendida para a Netflix, uma série que faz sucesso e paga as contas.

Fico imaginando uma sala de roteiristas, no Brasil, escrevendo uma série desse tipo. Comédia que trata de eventos que envolvem jovens de escola pública.

Sem querer ser maldosa, mas já sendo, imagino um roteirista que não sabe exatamente a diferença entre gêneros narrativos, fazendo uma série assim e começando a aula com um “Fora, Temer”. Ou transformando a série num libelo contra as péssimas condições de trabalho dos professores. Ou impondo uma visão de sexo que fizesse os espectadores se sentirem culpados por serem caretas.

Fico feliz em saber que, em algum lugar do mundo, existem criadores capazes de serem críticos, engraçados e eficientes. Ao mesmo tempo.

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