Joelhaço

Meu personagem preferido, na obra de Luiz Fernando Veríssimo, é o Analista de Bagé. O relativismo do joelhaço faz todo sentido para mim.

“O que dói mais, a carência afetiva, o complexo de Eletra, a angústia existencial ou um joelhaço?” Tenho vontade de fazer esse tipo de pergunta inconveniente para algumas pessoas de carma leve.

Para quem acredita em carma, como eu acredito, ser filhinho de papai é mérito. De outras encarnações. Pena que algumas pessoas estraguem o cacife que receberam abusando da sorte (e da paciência dos outros) nessa vida.

O Analista de Bagé serve como lembrete para mim também. Sempre que me pego com sentimentos de auto piedade lembro de que existem carmas muito piores do que o meu. Aliás, com alguma tristeza, admito que gastei muito tempo no passado esquecendo desse detalhe.

Conheci uma moça que fugiu de casa, numa favela carioca, aos nove anos, depois de ter sido estuprada pelo padrasto. Uns dez anos depois, ela estava puxando cadeia no Instituto Penal Talavera Bruce quando conheceu um trocador de ônibus, negro como ela, que fora visitar uma prima, tia, alguém da família que cometera um crime. Ficavam no pátio, em horário de visita, em beijos intermináveis, fazendo planos para o dia em que ela saísse dali.

Encontrei outro dia uma mulher simpática que me cumprimentou efusiva. Estava num shopping com um filho e dois netos passeando. A avó dela foi uma mulher que não admitiu perder a neta. Foi resgatá-la da filha que, viciada em drogas, queimava a menina, com menos de dois anos de idade, com cigarro. Porque ela chorava, ou porque a cocaína havia acabado, sei lá porque a mãe jovem, de família abastada, fazia isso. Talvez a mãe não considerasse o parâmetro do joelhaço do Analista de Bagé. O que dói mais, ter acabado o dinheiro para a droga ou alguém queimar sua carne com cigarro? Suas dores e seus traumas eram subjetivos, ela só impunha à filhinha ser feita de cinzeiro porque era esse o seu desejo, seu impulso.

Claro que esses dois exemplos são extremos, em meio às muitas histórias de terror que eu vi ou me contaram. Ocorre que, ultimamente, ouço, o tempo todo, histórias nas quais as pessoas atribuem aos outros seus problemas. E justificam a ausência de mudanças de rumo também a algum fator externo.

A avó da mulher hoje bem sucedida que encontrei no shopping tinha o ímpeto contra a adversidade. A maioria da população brasileira tem esse ímpeto. Ficam de fora os que têm pressa, pouco medo, nenhuma consideração pelo sofrimento dos outros, zero de autocrítica. E um carma excepcionalmente pesado.

Quem vive da narrativa, como eu vivo, sabe que personagens de ficção, ou de carne e osso, fazem o que está nos seus scripts. Por que alguém atura padrasto, filha, amigo, correligionário, namorada, marido que lhe prejudica?

Da classe média para cima, bem de saúde física e de vida, penso que é porque algum motivo (interno) impede de fugir, enfrentar, denunciar, largar. As pessoas pensam que estão amarradas, soldadas, emparedadas a sua sensação de dor paralisante, à cumplicidade aos próprios erros ou aos erros de entes queridos. Ou ficam paradas, só queixando, só reclamando porque é mais confortável. Com a vantagem de ficarem bem na foto. Como vítimas.

Observo que papel de vítima, hoje, é disputado no Brasil. Pelo cidadão comum, nos seus casos amorosos e familiares. Na vida política por todos os donos da verdade. Para exemplos mais detalhados, leiam Luciano Trigo no jornal O Globo, em 20 de fevereiro de 2017.

É como se a palavra responsabilidade sumisse do nosso cotidiano. Ninguém participou dos problemas que enfrenta, contribuições individuais são varridas para debaixo do tapete, as soluções dependem dos outros.

Quando o salvador chegar, tudo vai dar certo. Vamos emagrecer, arranjar um namorado novo, passar num concurso, mudar de emprego, escrever um livro, construir uma sociedade justa.

Falta Analista de Bagé para muitos dos que eu conheço na classe média.

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