Mais histórias, menos conversa fiada


Estou apaixonada pela prostituta Candy da série The Deuce. Não briga. Não se mete na vida alheia. Ajuda sem humilhar. Diz Não sem encompridar a conversa. Observa os sinais. Evita (até o terceiro episódio) confidências. Abre mão de se envolver com narcisista sádico.

Só faz o que ela quer. Só faz o que ela pode. Paga o preço.

Eu ia escrever que as outras mulheres, na série, são vítimas delas mesmas, mas depois me ocorreu que todos somos vítimas de nós mesmos. Quando não somos algozes dos outros.

É difícil criar mulheres tão apaixonantes como as prostitutas de The Deuce. E narcisistas sádicos tão precisos como os cafetões.

Um escritor precisa se mover no fio da navalha para obter precisão com nuance. Quem se mantém no conforto da auto ilusão é capaz da proeza que os criadores da série conseguiram? Penso que não.

Candy está sendo uma boa medida de comparação para mim.

Minha vida inteira briguei, me meti na vida alheia, pensei estar ajudando pessoas que se sentiram humilhadas com minha ajuda. Ou usufruíram dela e demonstraram ressentimento depois. Encompridei conversas inúteis. Fiz confidências para narcisistas sádicos. Subestimei sinais, fiz o que eu queria. Fiz o que eu não queria. Fiz muito mais do que podia.

Por todos esses erros, paguei um preço. Às vezes, alto, às vezes baixo, felizmente nenhum, até agora, que eu não pudesse suportar.

Minha mãe me disse muitas vezes: bronca é livre, bronca é arma de trouxa.

Reclamações, queixas, confidências em tom de bronca. Argumentos de trouxas, de vítimas. Os algozes, às vezes, nem precisam bater. Basta usar a comunicação pelo silêncio ou pela palavra como arma.

Algumas pessoas aprendem a viver deixando a vida levar. Outras precisam observar as pessoas, as histórias, suas e alheias, para entender, finalmente, o que está acontecendo. Eu faço parte do segundo grupo.

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