Diário da Peste 1

Quem conta, seus males espanta. Estou fazendo a meditação recomendada no livro “O Grande Silêncio” do Alcio Braz já que não posso, por enquanto, voltar à meditação com Reiki que o Diego ministra no Eininji. A primeira semana foi de praticar a Observação. A dessa semana é a de Silenciar o Crítico. Começou ontem e me percebi, nos primeiros cinco minutos, a criticar vivos e mortos, quando caía no devaneo. Hoje, no quarto turno, fiz nove minutos sem nenhuma crítica. Só planos. Como esse diário.

Fui andar no Parque Guinle perto às 6:45. Quase ninguém na rua. Ônibus vazios. Depois, fiz uma série pequena de pernas, braços e abdominal, seguindo o conselho de minha amiga Ana Cecília Springfield de não malhar em lugares públicos. Lavei meu cabelo novo (inspirado na série As telefonistas e executado pelo Jaime, um artista!) com o shampoo Vichy que tenho o privilégio de poder comprar. E, agora vou cair na escrita profissional para depois dar uma conferida nos cursos grátis de Harvard que minha amiga Cris Demier enviou por whatsapp. Estou aqui pensando se aceito o oferecimento do meu sobrinho Nelson Vinícius e peço para ele comprar leite sem lactose no supermercado perto da casa dele.

Para mim é importante manifestar Gratidão por qualquer pequena coisa que me fazem de bem. Porque sou muito crítica aos que nos fazem Mal. Preciso compensar de alguma forma.

21 de março. Ontem, conversei com meu amigo Miguel. Conversamos sobre a Morte estar de tocaia. Pronta para dar o bote. E sobre as maneiras de ludibria-la. Billy Wilder disse: os pessimistas construíram piscinas em Beverly Hills, os otimistas morreram em Auschwitz.

Não acho que a quarentena vai durar 14 dias. Para o pessoal que teve contato com os contaminados, veio do exterior é uma recomendação imperiosa. Mas para nosotros? Vai durar muito mais. Já estou armando o coreto.

Enfrentei muitas escaramuças e adversidades nessa vida. Já vi a Morte. Eu tinha sete, oito anos, talvez, tive uma convulsão dormindo, caí da cama, vi minha mãe e minha avó gritando na Fé e eu ali, de pijama, em pé, olhando o escarcéu espanhol em torno de mim me debatendo no chão. Logo depois, a convulsão parou e eu não estava mais de pé. Estava no chão, elas me sacudindo. Talvez a Morte tenha ido embora em respeito à gritaria. Hoje é engraçado, ali foi apavorante.

Como enfrentei as adversidades? Estabelecendo o que de pior poderia acontecer e avaliando se estaria preparada. Dessa vez, não estou. Para morrer, talvez. Para o pior, não. Morrer de Coranavírus é o de menos. Estou ciente disso.

Enfrento a praga com o que sei fazer. Me divirto abatendo os problemas com minha cimitarra de mão, aquela que dorme do meu lado à noite, a que ponho entre os dentes de dia. Me acolho na máquina narrativa que salvou minha vida desde sempre, meu sanatório de bolso. E me refugio no trabalho, porque cérebro desocupado é oficina do demônio, como diria minha abuela amadíssima.

O principal, para mim, no entanto, é a Fé. Quando enfrento alguma adversidade me pergunto: o que posso deixar no Altar de Sacrifício? Minhas oferendas são pequenas, médias ou grandes, dependendo do pedido. Um exemplo: eu adorava churros. Comecei a engordar no meio de uma batalha particularmente dolorida. Parei de comer churros. Venci. Não se trata de promessa e sim de renúncia. Se eu for a Madri, vou comer um churro, claro, mas apaguei o desejo.

Dessa vez, o perigo está tão grande e generalizado que estou disposta a abrir mão do que for meu maior defeito. Só falta identificar entre os três ou quatro grandes, qual será abatido.

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