Diário da Peste 4

23.03 Meu pragmatismo (ou meu Anjo da Guarda, talvez os dois) me impulsiona a aprender o tempo todo coisas que talvez não use agora, talvez não me sustente imediatamente, mas quem sabe daqui a algum tempo? Como eu consigo esperar tanto? Escrevendo. Às vezes, publico. Outro coloco na “gaveta”. Publico meus livros esgotados ou inéditos no Kindle. Escrevo diários (desde os 11 anos).

Foi assim que passei a restringir a partilha presencial de meus medos, objetivos, minhas soluções, raivas ou convicções. Porque existe uma diferença entre leitores e pessoas de carne e osso. Os primeiros são mais amorosos, têm menos preconceito com os diferentes. Talvez porque ninguém é obrigado a ler.

Gosto muito da história da mulher do Rei Salomão. Aquela que disputava o filho com outra mulher e o rei mandou que um soldado partisse a criança ao meio e desse um pedaço para cada uma. E a mulher preferiu abrir mão para o filho não ser dividido. É verdade que aquilo foi um estratagema do rei para descobrir quem era a mãe de verdade. Mas ela desistiu antes. Venho de uma origem que nunca desiste. Isso, percebo hoje, afasta, enraivece, às vezes, açula o que existe de pior nas pessoas.

Ainda pouco troquei ideias com uma pessoa que teve muitas oportunidades de me observar atuando. Para aliviar minha angústia, precisei incomodar alguém que nunca me incomoda.

Fico um pouco triste com isso, mas, pelo menos, consegui manter a conversa num nível mais abstrato, sem escorregar para confidências melodramáticas. Isso para mim é uma proeza.

Insistir no que a gente não sabe fazer, leva ao um beco sem saída que, em geral, só pode ser resolvido pela espada. Alguém será partido ao meio.

Últimos textos
Arquivo