Diário da Peste 9

Lucidez zero é uma característica que atrapalha a vida das pessoas, mas rende boa dramaturgia.

Agir sem pensar nas consequências. Incapacidade de planejar. De admitir erros e mudar de rumo. Busca acidental ou deliberada da desgraça para si mesmas e para todos a sua volta. Pessoas que pensam, falam, escrevem que o culpado é sempre o outro.

Penso que todos os adultos, de qualquer profissão, deveriam fazer cursos sobre Ficção. Peças, roteiros de filmes e séries. Não para serem profissionais. Para se prepararem para entender quando e como as pessoas de lucidez zero enlouquecem.

Na ficção, se observa que as pessoas aprendem, incorporam comportamentos por vocação ou por necessidade. Existe um Arco Dramático do Personagem que se desenvolve a partir do um perfil. Existe um conjunto de traços, marcas que, dependendo das circunstâncias, afloram.

Eu sou eu e minhas circunstâncias. Ortega y Gasset.

Conheço, ao vivo e a cores, gente assim. Gente que evoluí da lucidez zero para a simples burrice, surto, demência. Como o Rei Lear. Como o Greg de Zona Morta.

Aliás, a melancolia que senti algumas vezes na vida, hoje sei, era o luto por ter acreditado, convivido com pessoas desse tipo. Como ficcionista posso afirmar: dá para escrever uma tragédia, como o Rei Lear, mas não dá para escrever uma série com um protagonista desses. Fergus pode ser protagonista. O pai dele, não.

Lucidez zero é característica para vilão (Greg de Zona Morta), adversário, aliado que arrasta para ciladas (Odisséia), personagem por quem o protagonista que tenta ser herói de si mesmo se apaixona. Para se dar mal, óbvio (Cassino).

Nesse período da Peste, leio, vejo na TV gente enlouquecendo. Defendendo ações que só se explicam por burrice, surto ou demência.

E não é de hoje que vejo essa defesa. Desde 2016, as pessoas dizem, escrevem coisas extraordinárias que os loucos de “papel passado” não diriam, não fariam.

Negação. Raiva. Negociação. Tristeza. Aceitação. Entendimento. O luto fortalece, algumas vezes. Triste, outras. Não é verdade que dá para aceitar e entender tudo. Dá para curvar a cabeça diante da perda e se conformar. Mas aceitar? É improvável.

Tenho compaixão pelas pessoas – nesse momento– que não têm lucidez. O que será delas depois de escreverem, gravarem tantas vezes que o errado está certo?

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