Diário da Peste 14

Emojis. Por algum motivo, minha amiga entendeu que eu não gosto de emojis. Gosto quando a moçada aqui põe um polegar pra cima, um coraçãozinho, um riso aqui.

Apenas percebo que, algumas vezes, as imagens padronizadas servem para disfarçar dificuldade de explicitar sentimentos. Entender sentimentos. Inclusive os próprios.

A maioria das nossas invenções, inovações, aperfeiçoamentos nos levam em direção à Preguiça, ao Sedentarismo, à Inércia. Isso é inevitável e eu não contesto. Mas é diferente quando os emojis poupam as pessoas de escreverem:

“te amo”; “você está agindo no modo “estão me perseguindo/rejeitando/ discriminando”, não está?”; “choro de ódio quando escuto o que esse psicopata diz”; “vamos brindar, ouvir música, dançar muito quando a Peste acabar”; “sinto muito se mais uma vez magoei você”... e por aí vai.

Da mesma forma que os arquivos de áudio poupam as pessoas de assumirem erros ortográficos ou de concordância. Não tem problema falar errado, escrever errado. Corrijo meu diário, depois que publico, umas três vezes. Editar a publicação é um grande pequeno aperfeiçoamento tecnológico. Apagar mensagens recém enviadas, idem.

O problema, para mim, é não explicitar sentimentos quando se está distante.

A expressão explícita - talvez porque eu seja uma pessoa mediana - faz diferença. Levei anos para entender que as pessoas que não me convidavam mais para festas de aniversário haviam me “faxinado da agenda”. Anos também para assumir que as pessoas para quem eu ligava sempre, chamava para sair, deixava recado e não retornavam, não me priorizavam. De novo, faxinar a agenda e evitar gente chata são atitudes de autodefesa compreensíveis. Assumo minha responsabilidade espiritual nisso: a lerdeza de reação está em mim.

Pena que, no que me diz respeito, a reciprocidade é Top 10. Se não fosse o medo que tenho de cair em Hybris, diria que reciprocidade é a versão Sonia Rodrigues de “olho por olho, dente por dente”. Hahahaha. Gostaram da “rubrica”? Indica que estou rindo, e é para vocês rirem também.

Como é autoritária a Comunicação no século XXI!

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