Diário da Peste 18

Muitas pessoas administram crises durante a Peste. São pessoas que têm cargos em empresas privadas ou em órgãos públicos e continuam trabalhando, de verdade, pela sobrevivência de gente e de empregos. O que é a mesma coisa, como qualquer um que pense além do dia de hoje sabe.

Qualquer boa decisão fará com que a saúde física e mental de seres humanos seja preservada o mais que for possível.

Qualquer boa decisão será lembrada na hora de manter postos de trabalho. Escorregadas ditadas pelo caráter ou educação de cada um serão anotadas num caderninho. Aqui ou Do Outro Lado.

Eu não administro crises atualmente. Tento administrar saúde (a minha em primeiro lugar, aquele negócio de colocar a máscara de oxigênio em nós mesmos antes de colocar nas crianças), carreiras, dinheiro. Administro a minha carreira de escritora e roteirista sonhando e escrevendo. Terminei um livro, articulei o projeto de um longa infantil, me preparo para abrir um roteiro, começo hoje a fazer o script doctor da escaleta de uma produtora queridíssima, acompanho os inscritos na Escola de Séries.

Crises, hoje, não administro, elimino. Elimino crises que resultam de padrões endurecidos, moldados pelo ressentimento, por histórias mal contadas com visões unilaterais de quem é o culpado de quê.

É impossível dialogar com os fantasmas alheios. Muito mal conseguimos dialogar com os nossos. O que fazer? Nada. Nenhum movimento é o melhor movimento. Quando não existe diálogo, penso que o melhor é tocar o barco e tomar distância.

Isso, durante a Peste, vale para tudo. Para clientes, fornecedores, adultos, crianças, desafetos, amores.

Impossível sair sem escudo na rua da Internet, a única que temos, nos dias de Peste. Hoje mesmo consegui deixar minha alma em silêncio em uma hora de reunião. Só falei de trabalho. Uma proeza.

Diálogo é bom. Diálogo é amigo. Diálogo é, inclusive, sexy. Quando existe entrega.

Conversar com quem traz seus fantasmas para a rua é derrota certa. A menos que de um lado esteja um ser humano possuído por suas certezas e do outro o profissional que vai medica-lo.

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