Diário da Peste 29

Preguiça X Prazer

Na quarentena tenho que fazer o que não sei, fazer mal feito e me afastar do que gosto.

Sou a pessoa mais preguiçosa do mundo. Uma vez, minha filha caçula ouviu isso e comentou com uma amiga: tsk, tsk, minha mãe a pessoa mais preguiçosa? Imagina o mundo.

Sou sim. Mas minha filha me assistiu escrevendo 35 páginas por dia para telenovela do Walter Avancini. Ou antes disso, fazendo mestrado e doutorado na Gávea e dando 12 aulas seguidas, no Colégio Estadual Barão do Rio Branco, em Santa Cruz, para turmas de 48 alunos.

Ela pensa que a pessoa que carrega piano do jeito que eu carrego não pode ser preguiçosa. É porque ela não escuta meus pensamentos. Na pandemia, estou no computador me divertindo e, de repente:

Putz, pelo barulho, é hora de tirar a roupa da máquina! Ai, tenho mesmo que desinfetar todas as compras que foram entregues? A pilha de roupa para passar não para de crescer, é agora ou nunca! Acabou o pão, tenho que assar mais! Sujou o forno, como é mesmo que se limpa? Ainda bem que o aspirador funciona como vassoura!

Como minha filha não sabe disso, registra apenas as longas horas que eu gasto fazendo o que me dá barato.

Aqui em casa, as auxiliares domésticas foram poucas. Duas passaram anos me poupando dessas tarefas graças aos direitos trabalhistas e a total liberdade de horário e de organização. Isso minha filha sabe: as duas eram as “donas da casa”.

Dou valor a honra e a excelência em qualquer trabalho. Aparecida agora, Nena, antes, resolviam tudo em duas vezes na semana. Cérebros de engenheiras! Gestoras exemplares do próprio tempo.

Eu passo horas me arrastando entre as tarefas. Todas feitas com incompetência exemplar.

Li uma vez sobre uma executiva do mercado financeiro que ganhava milhões por ano e no final de semana lavava, passava, cozinhava e limpava os banheiros da casa dela. Pode ser que ela gostasse mesmo era do trabalho doméstico e só, forçada, ganhasse os milhões no mercado financeiro. Vai saber!

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