Diário da Peste 32

Nada Ortodoxa

A Peste tem me deixado inquieta. Mais do que já sou. Fico observando os segredos da sobrevivência e tentando ser uma pessoa melhor. No meu caso, isso tem a ver com acolher minha própria ansiedade. Manobra-la. Não creio que consiga me livrar dela assim, sem mais nem menos.

Quem se aceita mais, sobrevive melhor à pressão do isolamento? Às adversidades em geral? Acho que não. Aceitar o que somos não facilita a vida para nos poupar da dor, do fracasso, da perda. Servirá, talvez, um pouquinho, para impedir que as pessoas malévolas nos façam sentir pior do que somos, nos momentos difíceis.

Assisti ontem ao que acontece com o cafetão C.C em The Deuce e fiquei tomada pelo horror e compaixão frente aos que fracassam ao triunfar.

Sorte foi que a série Unorthodox fez parte do meu final de semana e uma coisa contrabalançou a outra. Porque Ester se aceita e se move com cuidado no cipoal em que está envolvida.

Tudo na vida depende de quem recebe. Esmola, ajuda, fofoca, bofetadas, mensagens, imagens, palavras ao vento, decisões alheias. Qualquer coisa pode soar como humilhação, desfeita, agressividade.

Mas existe alguma maneira de receber esmola ou bofetada sem ficar ofendido? Deve existir. Porque quem dá a esmola pode estar, por exemplo, genuinamente dividindo o que lhe resta com um desconhecido. Quem dá uma bofetada, às vezes, interrompe um processo autodestrutivo. Pode ser que o resultado positivo tenha ocorrido sem a menor intenção de ajudar, mas ajudou. Sem querer.

Esse é o momento. De mudar para melhor ou manter o de sempre. Façam o jogo, senhoras e senhores. Porque a hora de quebrar a inércia é agora.

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