Diário da Peste 42

Sabe a mulher hetero que lê o poema maravilhoso de Herton Gustavo Gratto - sobre um homem rastejando apaixonado para o Alonso - e se identifica? Sou eu.

Ou assiste Mrs Flatcher e bate na frase “imagina se sentir desconfortável na sua pele a vida inteira” e pensa “entendo perfeitamente”? Sou eu.

A pessoa que que respeita prazos, responde mensagens, cuida dos interesses alheios sem precisar ser pressionada e fica magoadíssima quando combinam as coisas com ela e não cumprem? Sou eu.

Listando essas três fraquezas dá para perceber que hoje estou zangada. Comigo, principalmente.

Por ser capaz de entender quem rasteja, por já ter rastejado.

Por continuar me esforçando para ser fiel a única pessoa que merece fidelidade, eu mesma, quando continuar rastejando seria muito mais fácil.

Por me manter registrando os prazos não cumpridos, as mensagens não respondidas, ao descaso na reciprocidade.

Porque existem muitos “Alonso” em cada esquina, em cada categoria de afeto.

Aos que têm a natureza de registrar erros e desmandos alheios – como eu – só restam duas alternativas. Não baixar a guarda e abrir mão de qualquer migalha que possa receber dos Alonso. Difícil até o quase insuportável.

Não baixar a guarda, abrir mão de qualquer migalha que possa receber dos Alonso, e transformar a zanga e a mágoa em escrita criativa.

Além de doer o abrir mão de migalhas, ainda dá um trabalho danado. Mas quem disse que a vida é fácil? Em qualquer hipótese, ser passional e estar viva é melhor do que a dor da mãe de Danilo.

Danilo David Santos Silva, 33 anos, médico, morreu no dia 10 de maio de 2020, de Covid-19. 24 horas depois de ser entubado no hospital onde trabalhava. Paraense, filho de uma diarista e de um vidraceiro era, aparentemente, mais um exemplo dos jovens que gostam de estudar e nos quais as famílias pobres investem tudo o que podem.

Hoje estou triste. Com a minha natureza passional enrustida e com os descaminhos da Peste no Brasil. Ainda bem que ouvi a psicografia lida por Alexandre Magalhaes.

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