Diário da Peste 48

River é uma série BBC que me provocou um estalo em relação ao ressentimento. A principal fonte de ressentimento é achar que a realidade ou as pessoas deveriam ser diferentes do que são.

A segunda fonte de ressentimento é a gente não fazer o que precisa fazer com ou se desvencilhar das pessoas que nos fazem mal e depois ficar remoendo aquilo até enlouquecer . Ou deixar que as pessoas nos enlouqueçam. O mais interessante é que as pessoas fazem yoga, vão a centros kardecistas, fazem retiro budista, estudam, trabalham, são bem sucedidas... Mas continuam querendo que pessoas e coisas sejam o que não são.

Algumas fazem terapia e, de certa forma, pioram sua natureza ressentida. Porque na terapia ficam cutucando o por quê de aturarem isso ou aquilo, por que permitiram que as pessoas fossem egoístas ou cruéis com elas. Eu sei, já ouvi isso centenas de vezes.

Ninguém precisa de permissão para ser cruel ou egoísta.

Crueldade e egoísmo alheio a gente atura quando não tem lucidez ou quando não tem forças para deixar de aturar.

Dizem que algumas pessoas aturam porque gostam de sofrer. Ou obtém vantagens aturando. Pode ser. Em River, um personagem conta que a mãe o levou para a casa da avó e, enquanto ele brincava, foi embora e ele só a reencontrou oito anos depois. Drogada.

Outro personagem mata a mãe biológica porque a mãe adotiva enfiou na sua cabeça, por repetição, que a primeira queria abortá-lo. Como saber se não é melhor ser abandonado do que maltratado por alguém que não quer ou que não consegue cuidar? Alguém inventou que é ruim ser abandonado, traído, menosprezado e os ressentidos acreditam.

Acho que o ressentimento é uma vocação. Conheço gente que se ressente de tudo. Do que lhe diz respeito e do que diz respeito aos outros, ao país, ao planeta. Ressentimento contra a vida, o destino, as opiniões alheias.

Não seria melhor reagir de forma a minorar o prejuízo ou, caso isso não seja possível, ir adiante, cuidar da vida? Cuidar da vida do jeito que der?

River é uma série esplendida, para mim, porque me lembrou que, independente, dos traumas, fraturas, traições, o melhor caminho ainda é o da justiça. Mesmo quando ser justo significa fazer as pessoas próximas assumirem as consequências dos seus atos.

Duríssimo abrir mão das pessoas. Porque somos treinados para não desaprovar. Porque odiamos ser desaprovados.

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