Cadeia não foi feita para cachorro

O que fazer quando se perde o sono às cinco da manhã? Assistir “Narciso de férias” documentário sobre Caetano Veloso.

A descrição da solitária onde ele ficou, a descrição da cela me deu uma derrubada até que lembrei do que aprendi na adolescência. Seres humanos não inventaram celas intransponíveis para bichos. Inventaram para gente.

O documentário me fez buscar o único verso do qual lembrava a respeito do orgulho das origens: Minha mãe me deu ao mundo/De maneira singular/Me dizendo a sentença/Pra eu sempre pedir licença/Mas nunca deixar de entrar.

O Matriarcado é como as drogas. Bate em cada um de maneira diferente.

Matriarcas mais suaves ensinam a sempre pedir licença, as criadas na guerra sobem no trator e arrombam as portas. Com os filhos escanchados na cintura.

Algumas filhas, guerreiras, aprendem a pedir licença para não serem atropeladas pelas humilhações dos bem estabelecidos. Outras, mais melancólicas, colocam a faca entre os dentes e defendem, a contra gosto, as tendas do matriarcado contra as tropas inimigas.

Hoje, é aniversário de minha irmã Maria Lúcia.

Lembro dela aos oito, nove anos no primeiro baile de carnaval. O maior sucesso com os meninos, eu morta de inveja.

Lembro de minha irmã, aos 13, mudando de uma casa na Avenida Portugal, na Urca, para o trajeto do bairro de Vista Alegre até a casa de minha avó, à noite. Sozinha. Para não parar de estudar.

Vendendo sardinhas no cemitério de Irajá para termos o que comer porque a cunhada de minha mãe roubava 30% da mesada que meu pai nos dava. A reação justiceira quando descobriu o roubo. A memória dessa cena me faz rir.

E a determinação na chegada de cada uma das filhas, a mais velha nascida no exílio? E a pedagogia de criar bebês prontos para a vida, segundo Maria Lúcia? Isso me ensinou muito.

Obrigada, Caetano Veloso, régua e compasso nessa madrugada insone.

Meu povo, sofremos tanto/Mas sabemos o que é bom/Vamos fazer uma festa/Noites assim, como essa/Podem nos levar pra o tom.

Parabéns, minha irmã. Muito orgulho de partilhar as armas do matriarcado com você.

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