Aceitar

Fui alfabetizada aos cinco anos. Leio por conta própria desde os sete. Mas só agora entendo a diferença entre os verbos “aceitar” e “aturar”. Eu acreditava que aceitar as pessoas como elas são significava aturar que elas não gostem de estar, conviver, partilhar comigo. Ou aturar que elas me queiram em gotas homeopáticas. Pelos mais variados motivos. Tem restrições a mim porque sou solteira e não gostam de me ver perto dos maridos. Porque sou assertiva e para elas assertividade e agressividade é a mesma coisa. Porque têm medo de que eu peça dinheiro emprestado. Porque não gostam do meu senso crítico. Porque não sei fazer cara de paisagem quando dizem ou fazem alguma coisa que me incomoda. Porque tenho a mania de esperar por justiça e precisão. Ou, simplesmente, porque não querem me dar o que acham que eu desejo... A lista é infindável.

O pior é que são pessoas legais.

Estou convencida – finalmente, Aleluia! – que devo aceitá-las como são. O que não significa que devo aturá-las. Porque eu preciso de entrega. Preciso saber, claramente, o que as pessoas querem de mim, esperam de mim, preciso de combinados, contratos, como o Sheldon Cooper. “Gosto muito do mistério, mas prefiro a verdade”(Caio Fernando Abreu).

Qual o resultado disso? Se aceito, mas não aturo, estou em uma encruzilhada. Como vou agir com entrega e transparência com quem, na prática, age sem me aceitar e acolher por inteiro? Sim, porque eu não entendo meio sinais, cara de paisagem, convenções quando está em jogo afeto. Como me disse, uma vez, um ex-ficante: “Sonia, você só tem um defeito, quer dizer, nem é defeito, é característica (homem esperto, tinha esperança de manter a eventualidade): você leva tudo ao pé da letra”.

Levo mesmo. E sem a letra, não aturo nada.

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