Dia das Mães


Eu cresci entre mulheres que contavam histórias, conversavam sobre coisas e lutavam, com a faca nos dentes, para sobreviver.

Isso foi o que guardei como referência feminina. Essa foi minha herança materna.

Penso que nós somos o que acolhemos de nossas referências familiares. E somos o que praticamos a partir dessas referências.

Conversei, uma vez, com um homem que se casou várias vezes, teve muitas amigas e namoradas. Elas contribuíram para as referências dele.

Para mim, a referência é a origem. A tribo. O clã.

Acredito que só aprendemos o que combina com nossa vocação. A mim não importa se as mulheres da minha família materna eram às vezes boas, às vezes más, em geral, pouco lúcidas a respeito de suas escolhas. A obrigação de sobreviver a qualquer custo cobra um preço em termos de quantidade de clareza que se pode manter. Hoje entendo.

Infelizmente, não aprendi a ser malvada o tanto que deveria. Saber exercer a maldade é um dom, nem todos têm. Mas, em contrapartida, a lucidez se estabeleceu em mim e não aceito mais respostas equivocadas.

A minha vocação desde pequena sempre foi perguntar: por que isso é assim e não assado? Em muitas ocasiões respondi errado ou aceitei respostas desprezíveis. Até respostas contra minha tradição matriarcal aceitei.

Hoje, véspera do Dia das Mães, as referências femininas estão claras no meu caminho. Conto histórias, converso sobre coisas e sobreviver não é o maior objetivo. Tenho alguma margem de manobra com meu destino.

Graças à minha falta de simpatia pelo delito continuado.

Graças às matriarcas que me antecederam.

A elas, que já estão na Terra sem Males, meu respeito e meu amor.

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