Vantagens

Estou lendo um livro do Padura, emprestado por minha amiga Angélica Coutinho. Descobri (eu ignorava esse detalhe) que o Ramon Mercader era filho de uma mulher maluca e fanática. Percebi também que eu poderia ter me tornado uma fanática das boas intenções políticas se não fosse meu Anjo da Guarda que me socorreu tantas vezes impedindo que meus desejos fossem realizados.

E se não fosse minha impertinência que me leva a questionar os motivos mais comezinhos das pessoas a minha volta. “Por que o estrogonofe precisa vir acompanhado de batata sauté e não de batata portuguesa?” é o mínimo que eu pergunto. Faço questionamentos mais implicantes e indiscretos. “Por que, de repente, você deu para ter insônia?” Ou “Por que um dia você se despede no whatsapp com beijos alegres e no outro com “abraços” formais?”

Sally Albright, Sally Albright, sua versão brasileira poderia ser Sonia Rodrigues.

No entanto, a maior das minhas vantagens é ser filha de personagens, não de papeis. A definição clássica de personagem é “faz porque pode, porque a narrativa pede e a plateia acredita”.

Papéis são fluídos. Um dia, a pessoa é vilã, noutro é mentor, noutro é aliado.

Se ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais é porque acreditamos que tivemos pais. Quer dizer, eu não acredito. Mas as pessoas que eu conheço acreditam. Não ocorre a elas que a mãe tão legal e submissa podia, secretamente, ter uma amante. Ou que o pai com fama de corno manso não transava com a mulher há 15 anos porque tinha um namorado casado e com três filhos. E nos dois casos, o cônjuge aparentemente vítima ( o amado paizinho ou amada mãezinha com o qual os filhos se solidarizam) aceitar em troca de alguma coisa.

Eu podia levar o dia inteiro escrevendo sobre como somos todos plateia de personagens canastrões em seus papeis. Ou como somos canastrões em nossos papéis. Não temos consciência, mas, com frequência somos.

Prefiro, no entanto, me agarrar à frase: Temos a Arte para que a Verdade não nos destrua.

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