The american sniper

Assisti hoje ao filme de Clint Eastwood, o que me deu, novamente, a oportunidade de pensar sobre a diferença entra empatia e simpatia. É impossível ser um atirador de elite e ter empatia. Um matador é movido a simpatia por um lado apenas. Ele está ali, arma na mão, para atacar um alvo e proteger outro. Não importa a nacionalidade ou crença. Essa é sua função. De Ulisses a Chris Kyle, do grego ao texano, a única coisa que importa a um guerreiro é matar o inimigo, proteger os amigos e, se possível, voltar para casa. É impossível ser um roteirista de verdade baseando-se em simpatia. A um roteirista cabe contar uma história com imagens, palavras e ações baseadas em imagens. Se o roteirista concorda (simpatiza) com a entrada dos Estados Unidos no Iraque não tem a menor importância. Se o roteirista simpatiza ou não com texanos, com pessoas que usam armas como parte da cultura e da indumentária, sem importância também. Uma história deve ser contada como os indícios apontam ter acontecido. Clint Eastwood é americano, vem de uma cultura que não tem vergonha de ser o que é, vem de uma época em que artistas não tinham vergonha de suas convicções. Para o bem e para o mal. Acima de tudo, é um artista americano. Pode ser fiel ao atirador americano, ao seu país, a si mesmo. Histórias sempre me ajudam a ser uma pessoa melhor. Percebi assistindo The American Sniper o quanto a empatia é perigosa na vida real. O guerreiro se perde de si mesmo quando abre mão da tristeza da simpatia e, guiado por outro, se encontra pela empatia a quem não merece. Porque a empatia funciona na ficção, mas é destrutiva na vida real. Como é que pude viver tanto tempo e não perceber que entender o ponto de vista dos outros é o caminho mais curto para a destruição? Ainda mais quando nossos desejos conflitam com os desejos alheios? Como pude não entender antes que ter empatia é essencial para um escritor, mas todos a volta do escritor, funcionam na base da simpatia e, por não conhecerem a narrativa não fazem a menor questão dela? O atirador americano não me entristeceu. Apesar das minhas lágrimas ao final. Apesar da testosterona com que Clint Eastwood sempre brinda aos seus espectadores. Eu gosto de testosterona. O que o filme fez foi me mostrar que ser escritor ou ser guerreiro não nos protege da vida. Mas também, nada nos protege da vida. Essa é a graça.

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