Sem palavras

Bela pratica o Silêncio. Praticou o silêncio quase que a vida toda. Por amar um homem casado. Por ser mãe de um filho único praticante do distanciamento amoroso. Por preguiça de perder tempo enfrentando o preconceito, a inveja, a discriminação. Das pessoas queridas. Sim, porque me ensina Bela, o melhor caminho para as pessoas se manterem queridas é não confrontar seus lados escuros. Falar muito sobre nossos sonhos e medos é a maneira mais rápida de deixar de gostar de pessoas queridas. Bela diz. Mas para quem você ama, não conta tudo? Quase tudo, admite Bela. Quase. Conto para quem me acha bela. Tagarelando. Tirando a roupa. Rindo das gracinhas. Ou reclamando dos egoísmos. Contar quase t

Divinas Divas

Fui assistir ao documentário esplendoroso sobre as sete travestis que fizeram história. Elas surgiram para a fama no Teatro Rival, vanguarda nos shows de travestis nas décadas de 60, 70. O filme é um impacto de beleza e júbilo. Júbilo. Acho essa palavra o supra sumo da honradez. Não se queixe e não reclame. Parece que As Sete sobreviveram tão fortes graças à consigna chinesa. Rogéria, Valéria, Jane di Castro, Camille K., Fujica de Holliday, Eloína, Marquesa e Brigitte de Búzios passaram por tempos duríssimos, mas são atrizes, lindas, vitoriosas. Umas com mais sorte no amor, outras com menos, mas todas com glória e fama. Porque o amor depende muito de sorte e circunstâncias. Às vezes, o q

Clemência, de novo

Clemência me ligou. Agastada, quase desgostosa com meus comentários a seu respeito. Por que você expõe as pessoas no que escreve? Respondo: não exponho as pessoas, exponho a mim mesma. Você praticamente disse que eu peço arrego ao algoz, ajo como se fosse possível esperar que o algoz mude. É mentira? Não, ela responde, mas não precisava contar para todo mundo. Qual a graça de ser escritor se não for para contar as histórias? Clemência foi então por outro caminho. Porque em vez de escrever sobre ela, não escrevi a respeito da minha preferencia por homens egoístas? Touché! Ela tem razão. Bem que eu tento, mas homem e egoísta, para mim, é quase pleonasmo. Questiono: nós mulheres deveríamos t

Jonas vai morrer

Fazer um título bom é um talento raro. Jonas vai morrer. Quem é Jonas? Vai morrer como? Morte morrida ou morte matada? Homicídio, quem mata? Li esse livro em Portugal. Em 24 horas. Porque fiquei desesperada atrás do Jonas. Suspense total. Mais uma vez, fiquei feliz pelo meu bom hábito de sempre ler o que escritores me oferecem. Quando Edson Athayde me apresentou o livro pensei: estabelecer um bom título é como ganhar uma parte da loteria. O resto do prêmio depende de sorte. O pior é que depois de ler, fiquei pensando em quantas possibilidades de cinema existiam ali. Claro que antes pensei em como o autor “encena” bem a Língua. A elegância. A construção do protagonista. O olhar sofisticado d

Clemência

Conheço uma mulher chamada Clemência. Que tipo de gente coloca esse nome numa filha? Não podia dar certo, claro. Ela tem dificuldade de identificar de onde vem o perigo. E tem o mau costume de tentar convencer os perigosos a reverterem o prejuízo. Ilusão. Ilusão. Ilusão. Alguém consegue imaginar Cercei Lanister esperando que o Alto Septão se regenere? Uma qualidade das mulheres malvadas é que elas só poupam (mais ou menos) aqueles a quem amam. Quando as amam direito. Quando não amam, elas detonam também. Penso que isso é genético, no sentido grego da palavra, de Genos, origem. Nos dias de hoje, quem não é malvado precisa ser samurai. Em todos os sentidos. Os clementes não têm o consolo da

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