Diário da Peste 34

Diálogos Imaginários Sou viciada no que Bakhtin chamou de Diálogo entre Verdades. Como a Peste limita o contato pessoal e como as pessoas estão com os nervos à flor da pele, o abastecimento de meu vício está difícil. Hoje, dialogando dentro da minha cabeça com um hiper realizador a respeito de dois outros hiper realizadores, me ocorreu: Tudo o que atribuímos ao Outro (e a nós mesmos) é interpretação. Quando eu digo que alguém procrastina o próprio talento porque a vaidade é tanta que só aceita praticar de Obra de Arte para cima, estou interpretando. Pode não ser por vaidade. Pode ser apenas preguiça. O problema não é atribuir características às pessoas por interpretar o que elas fazem ou diz

Diário da Peste 33

Escrevi o Diário da Peste, ontem na raça. Publiquei quase à força. Aí vieram os comentários de pessoas a quem admiro, fora as curtidas dos poucos leitores. E eu me senti recompensada por minha oscilação de humor durante a Peste ter tocado as pessoas. Hoje, 29/04, às 16 horas, farei uma live sobre adaptação de literatura para séries de TV. Eu e meus assuntos solenes de ex-menina Nerd. Eu já era assim antes da palavra ser assumida como conceito. Perfeccionista, comecei ontem a assistir “O último ato” com Al Pacino, filme adaptado do livro de um autor que adoro. Philip Roth. Resultado: oito minutos de monólogo de Pacino e comprei a versão Kindle de “A humilhação”. Para comparar as duas. Vejam

Diário da Peste 32

Nada Ortodoxa A Peste tem me deixado inquieta. Mais do que já sou. Fico observando os segredos da sobrevivência e tentando ser uma pessoa melhor. No meu caso, isso tem a ver com acolher minha própria ansiedade. Manobra-la. Não creio que consiga me livrar dela assim, sem mais nem menos. Quem se aceita mais, sobrevive melhor à pressão do isolamento? Às adversidades em geral? Acho que não. Aceitar o que somos não facilita a vida para nos poupar da dor, do fracasso, da perda. Servirá, talvez, um pouquinho, para impedir que as pessoas malévolas nos façam sentir pior do que somos, nos momentos difíceis. Assisti ontem ao que acontece com o cafetão C.C em The Deuce e fiquei tomada pelo horror e comp

Diário da Peste 31

Jorge Amado Quarta-feira, 29 de abril, farei uma “Live” sobre adaptação de literatura para séries de Tv. A partir do livro “São Jorge de Ilhéus”, de Jorge Amado. Esse é um grande livro e, ao meu ver, subestimado. Assistindo, nos dias de hoje, séries como “The Deuce”, “Peaky Blinders” ou “Fauda” que são séries painéis de contextos sociais, me pergunto o motivo de “São Jorge de Ilhéus” não ter sido adaptada ainda. Existem várias maneiras de se adaptar livros de um autor que colocou sua arte a partir do mundo em que vivia. Uma das maneiras é atualizando a temática. Isso é fácil a partir do catálogo de histórias e personagens de Jorge Amado. O Estado Mínimo (ou quase inexistente em certas regiõ

Diário da Peste 30

Existem pessoas que precisam do conflito para se sentirem protegidas. Afeto não interessa, dinheiro não interessa, apoio não interessa. As três coisas implicam em contrapartida. Quem dará afeto, dinheiro, apoio sem nada em troca? Muita gente dá. Em várias situações, seres humanos dão afeto, dinheiro e apoio em troca de serem brutalizados. Está aí uma vasta literatura – de Homero a Nelson Rodrigues - comprovando isso. Nos dias de hoje, fujo das pessoas que aberta ou disfarçadamente buscam o conflito. Tem mais. Já sou capaz de identificar o mais leve traço dessa característica. Quando ainda está “chocando”. O que identifiquei? O Mal chega pela certeza. Pela convicção de que o Outro está 100

Diário da Peste 29

Preguiça X Prazer Na quarentena tenho que fazer o que não sei, fazer mal feito e me afastar do que gosto. Sou a pessoa mais preguiçosa do mundo. Uma vez, minha filha caçula ouviu isso e comentou com uma amiga: tsk, tsk, minha mãe a pessoa mais preguiçosa? Imagina o mundo. Sou sim. Mas minha filha me assistiu escrevendo 35 páginas por dia para telenovela do Walter Avancini. Ou antes disso, fazendo mestrado e doutorado na Gávea e dando 12 aulas seguidas, no Colégio Estadual Barão do Rio Branco, em Santa Cruz, para turmas de 48 alunos. Ela pensa que a pessoa que carrega piano do jeito que eu carrego não pode ser preguiçosa. É porque ela não escuta meus pensamentos. Na pandemia, estou no com

Diário da Peste 28

Fiz uma live para a Escola de Séries na segunda, 20/04, sobre Storyline em livros, filmes, séries e só hoje escrevo sobre isso. Porque perdi a maior parte do dia ontem com raiva de algumas pessoas. A minha sorte é considerar o ódio perda de tempo. Por isso, só odeio três ou quatro. Fico com raiva de meia dúzia, mas minha raiva dura pouco. Minha raiva, então, não evolui. Cresce rápido, mas logo a substituo por outra, porque, nos dias de hoje, ficar com raiva, se a gente deixar, é coisa para o tempo todo. Difícil mesmo é amar. Amar demanda esforço, cuidado e nossa tendência é para a inércia. Amo meu trabalho. Amo tanto que penso que é um privilégio pagar as contas com algo que me dá tanto praz

Diário da Peste 27

Dano Moral Ainda há pouco, eu conversava com minha prima Alessandra ao telefone e concluímos que a adversidade (como a atual quarentena) funciona como as drogas estimulantes Potencializam o que somos. É como o amor. Apesar de que, para mim, amor é amor quando torna melhor as pessoas que amam. Amor que atiça defeitos é outra coisa. Tesão, obrigação, oportunidade de ajuste de contas de vidas passadas, sadomasoquismo psicológico (pior do que o outro que garante, pelo menos, orgasmos), conservadorismo. Existem pessoas, acredito, que só conseguem amar ao próximo parecido com elas. São pessoas que se apaixonam por quem não é igual, mas logo começam a tentar torcer o par, a rejeitar as diferenças.

Diário da Peste 26

Quando a peste passar, eu: cozinharei arroz com aspargos, bacon e camarão para quem acredita que sou a melhor cozinheira do mundo; cantarei Odara na praia com o cantor mais charmoso que existe; vou falar e ouvir palavras de amor por, pelo menos, por dez minutos, uma vez por dia, sem falta; darei apenas 30 minutos do meu tempo diário para fazer cara de paisagem, fazendo “hum, hum” e acenando afirmativamente para gente que esquece as besteiras que faz. E Isso apenas nos casos em que houver sexo e dinheiro envolvidos; irei a Paris, Roma, Londres, Dublin e só visitarei e revisitarei lugares que me lembrem outras vidas; Quando a peste passar, eu: eliminarei do meu dia a dia qualquer tentação da a

Diário da Peste 25

No Brasil, nós temos a mania de acreditar que “roupa suja se lava em casa”. Isso combina com nossa mentalidade patrimonialista de que somos “donos” de qualquer pessoa, coisa, evento que esteja dentro do nosso quadrado. Nossa cultura faz com que mulher espancada diga que bateu com o rosto na porta. Empregados engulam assédio moral diário sem ir para a Justiça. Mulheres aguentem, sem ridicularizar e sem dar uns tabefes, piadas idiotas de colegas mais idiotas ainda. Clientes não processem empresas que desrespeitam seus direitos de consumidor. Porque reclamar é coisa de quem não tem senso de humor. Ou defender posições dá trabalho demais. O que mais me espanta no dia de hoje, é que pessoas apare

Diário da Peste 24

É de rir a rotina doméstica de passar detergente e água sanitária em tudo. Álcool em cacho de banana, realmente! Minhas mãos, acostumadas apenas com o teclado de computador e pele humana, estão descascando da limpeza permanente. Hoje, decidi cuidar do trabalho criativo remunerado antes de escrever esse diário. Antes também de lavar, passar, aspirar a casa. Só abri exceção para o minúsculo tablete de chocolate que lavei com sabonete antes de abrir faminta. Preparei também uma live que farei segunda-feira aberta a contadores de histórias em geral. De todas as profissões. Penso que será útil, porque um pouco de técnica de contar histórias sempre ajuda. Repertório de histórias ajuda. Será uma au

Diário da Peste 23

Uma das dificuldades maiores da nossa época é aceitar o feedback negativo. Esse será um efeito positivo da Peste. Nosso esforço vem sendo, há muito tempo, a favor da auto complacência em todas as formas. Sendentarismo, obesidade, simpatia com nossos vícios, tolerância com nossos erros. Isso sem contar a busca pelo fracasso. É mais fácil se achar um gênio incompreendido do que refazer seu próprio trabalho dez vezes porque alguém que pode financiá-lo apontou um erro. Sei disso porque, com ou sem isolamento, escrevo livros e roteiros que recebem feedback. Leio trabalhos alheios que preciso avaliar. É preciso coragem para expor um roteiro ao crivo de alguém. É preciso coragem para dizer para um

Diário da Peste 22

Ambiguidade. Responsabilidade X Culpa. É difícil assumir as consequências da ambiguidade. Um comportamento que magoa, fere, põe a pessoa para baixo. Quem é responsável? Quem maltrata ou quem fica ali, dia após dia sendo maltratado? Lidamos o tempo todo com a falta de responsabilidade das pessoas frente ao erro. Durante a Peste, isso ficou pior. Antes, a hipocrisia social ajudava. “Ah, mas eu olhei para o outro lado quando você foi humilhada porque não queria me aborrecer com o chefe. E se ele me demitisse?” “Não disse nada quando ele foi agredido porque não sei que tipo de relacionamento eles têm.” Essas eram as mais fáceis. Hoje, além de tudo, existe o medo. Da Morte. Da perda total. Assum

Diário da Peste 21

Fiz uma listinha de coisas que, durante a Peste, podem ser úteis para quem vive no e do Audiovisual, quem trabalha com Criatividade. Penso que é o momento de: Limpar gavetas. Do mesmo jeito que limpamos as de roupa. Examinar peça por peça, deletar ou colocar no Diretório Rascunhos todas as ideias esboçadas que estão abaixo do nosso grau de competência atual. Consertar coisas. Projetos que só nos interessavam no passado. Ou que só “falam” aos que já concordam com nossas ideias. Existe conserto? Podem ser ampliados ou “secados”? Dá para editar as histórias? Podemos consertar sozinhos? Receber ajuda, conselho, mentoria. Fazer o dinheiro circular quando formos incapazes de cumprir alguma tare

Diário da Peste 20

Zona Morta. Stephen King. Comecei a reler ontem em inglês. E a ouvir com a voz do James Franco. É maravilhoso como histórias, inclusive de terror, são reconfortantes. Ainda mais uma trama profética como essa. Um escritor prever 40 anos antes o advento de um presidente como Trump. Apesar de que, o presidente de Zona Morta está mais para o nosso atual. Talvez Trump conseguisse ficar do mesmo jeito, antes da Peste. Mas a Peste vai mudar o mundo. Não tenho a menor dúvida disso. O mundo, o Brasil, a Peste causará mudanças em todos nós. O mais interessante, apavorante, talvez, é que tudo está sendo registrado. Um site é condenado a indenizar pessoas em mais de duzentos mil reais e continua propag

Diário da Peste 19

Ontem, comecei a assistir a série Taken no Prime Video. Eu precisava. É fácil distrair a cabeça com o olho por olho, dente por dente quando estamos no terreno da Ficção. O cowboy não é o Trump desviando aviões na Tailândia com respiradores comprados pela Alemanha. Na série, é fácil entender abater bandidos sem prisão e sem julgamento. Afinal, eles mataram um ente querido do cowboy. Hoje, de manhã, o Facebook me mostrou uma foto de 2013, eu, a Professora Sandra Carvalho e os alunos campeões Almanaque da Rede daquele ano, na Biblioteca Pública de Niterói. Aí foi que “o barraco desabou” nos meus sentimentos em quarentena. Porque 2013, foi o ano em que abri mão do Sei Mais Física. Porque 2013, f

Diário da Peste 18

Muitas pessoas administram crises durante a Peste. São pessoas que têm cargos em empresas privadas ou em órgãos públicos e continuam trabalhando, de verdade, pela sobrevivência de gente e de empregos. O que é a mesma coisa, como qualquer um que pense além do dia de hoje sabe. Qualquer boa decisão fará com que a saúde física e mental de seres humanos seja preservada o mais que for possível. Qualquer boa decisão será lembrada na hora de manter postos de trabalho. Escorregadas ditadas pelo caráter ou educação de cada um serão anotadas num caderninho. Aqui ou Do Outro Lado. Eu não administro crises atualmente. Tento administrar saúde (a minha em primeiro lugar, aquele negócio de colocar a máscar

Diário da Peste 17

Por quem os sinos dobram? No Brasil de hoje, penso que os sinos dobram por quem segue os líderes com fé cega. Já segui líderes com fé mais ou menos cega, porque sou muito questionadora. Desde “por que quem tem que ser assim, se meu desejo não tem fim?” até “mas o rei está nu, não está? Devo dizer a meu favor: depois que larguei a igreja/partido em 88 tenho evoluído em assumir essa característica: a de não me render a argumento de autoridade. Assisti, de 2016 a 2018, muitos amigos seguirem cegamente o Mito Lula. Maus perdedores, meus amigos repetiam o mantra Fora Temer em qualquer conversa. Era inútil pedir que me poupassem já que eu não havia votado no Temer. Ele um alvo único. Junto com seu

Diário da Peste 16

Todos os dias, alguém que eu não conheço entra para fazer um dos cursos online da Escola de Séries. Será o esforço de aprender coisas novas durante a quarentena? Algumas vão para o curso de Ficção que deveria ser de utilidade pública, nessa época de Peste. Se as pessoas entendessem melhor o folhetim brasileiro sabendo onde, como e por que acontecem as viradas, não estaríamos vivendo a má ficção com que somos brindados todos os dias. Procuram também o curso de Produção Executiva, Série Documental, Direitos do Autor. Isso me anima, já que o audiovisual exige um aprofundamento técnico holístico, se é que posso juntar as duas palavras. Se as pessoas lessem e assistissem direito as narrativas in

Diário da Peste 15

Gratidão, Memória e Fidelidade. Recuperei 12 anos, pelo menos, de mensagens eletrônicas. Eu recuperei, não. Quem recuperou foi o Lyns, do XSite ou Japa Soluções, não sei qual é a denominação pela qual ele é mais conhecido. Ele conseguiu converter minhas mensagens do Outlook de 2001 até 2013, mais ou menos, e ontem comecei a conferir as gavetas. Conferi 13 de um dos diretórios e parei. Fui ler “Deuses Americanos” do Neil Gaiman. Memórias registradas são uma coisa estranha. Porque, não canso de repetir, a escrita é muito denunciadora do estado mental e do caráter das pessoas. Tesão, paixão, gaslighting. Ciúme, inveja, ressentimento. Tudo isso “pula” do texto e quando se lê – 15 anos depois – é

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