Diário da Peste 10

Existe uma diferença entre autocontrole e assassinato. Por exemplo, eu matei meu tesão por churros. Eu pratico o autocontrole mantendo o consumo de vinho limitado a uma taça, uma taça e meia. Em homenagem à balança e em respeito à minha tendência ao vício. Penso que para enfrentar a Pestepreciso dosar bem meu impulso de eliminar sentimentos. Porque sou bem treinada em suportar e superar adversidades, mas já não lido tão bem com o controle de sentimentos. A tendência é suportar o insuportável e, finalmente, incendiar as pontes, carbonizando quem estiver nela. Ontem, meditei cinco vezes para conseguir manter a boca fechada num small talk. Não sei, não quero saber, tenho raiva de quem sabe. Es

Diário da Peste 9

Lucidez zero é uma característica que atrapalha a vida das pessoas, mas rende boa dramaturgia. Agir sem pensar nas consequências. Incapacidade de planejar. De admitir erros e mudar de rumo. Busca acidental ou deliberada da desgraça para si mesmas e para todos a sua volta. Pessoas que pensam, falam, escrevem que o culpado é sempre o outro. Penso que todos os adultos, de qualquer profissão, deveriam fazer cursos sobre Ficção. Peças, roteiros de filmes e séries. Não para serem profissionais. Para se prepararem para entender quando e como as pessoas de lucidez zero enlouquecem. Na ficção, se observa que as pessoas aprendem, incorporam comportamentos por vocação ou por necessidade. Existe um Arc

Diário da Peste 8

English Game é o nome da série que comecei a assistir ontem por indicação de Douglas Tourinho. A Peste está me ensinando coisas novas e consolidando aprendizagens do que intuía, mas não conseguia colocar em prática. Por exemplo, me conformar em me perder das pessoas. Me perdi de três pessoas já, nessa quarentena, acho que vou me perder de uma quarta. Entraram na caixinha “Pessoas a se cumprimentar com efusão em eventos públicos”. São legais, são bacanas, mas reagem mal a minha atitude de procurar abertamente informação, opinião, partilha de opinião. Ficam constrangidas de eu não corresponder ao protocolo delas. Preferem ter contato com pessoas como eu em fila de autógrafos, o que posso fazer

Diário da Peste 7

Segundo Round. Escrevi o pequeno desabafo sobre o morador de rua, às 10 horas, depois de ter realizado seis tarefas alegres desde que acordei às 5:40. Escrevi porque lembrei do coitado se lavando compulsivo e, dessa vez, chorei copiosamente. Chorar e escrever sobre o que me dói são duas coisas que faço com muita... liberdade. Porque acho chorar sem propósito muito bom. Chorar com propósito para mim é mais difícil. Do que me lembro, chorei com propósito, lágrimas mesmo, três vezes na vida. Podem ter acontecido outras, mas o choro de manha - especialmente o calundu – era algo impensável na minha infância. Se chorava de dor, de desespero, de raiva. Crianças choravam quando estavam doentes ou

Diário da Peste 6

Tive uma analista maravilhosa que foi grande interlocutora e me ajudou muito. Só tinha um defeito: não medicava mais. Hahahaha! Eu teria sido beneficiada naquela época por um ansiolítico por alguns dias. O Zen Budismo by Alcio Braz tem me ajudado muito nesses dias de quarentena. Só tem um defeito. Não resolve a angústia permanente que a Peste acarreta. E olha que eu gosto de meditar. Quatro coisas ajudam a dar um “tapa” na angústia individual numa hora dessas. Chocolate. Ficção. Beijo na boca. Vinho. Não necessariamente nessa ordem, claro. Vou começar pela Ficção. Estou com a mesma dificuldade de escrever ficção que estou em relação a meditar. Porque escrever histórias e meditar estão num c

Diário da Peste 5

Margareth Dalcolmo, a infectologista da Fiocruz, está entre meus personagens preferidos nesse período de Peste. Ela, para mim, é a essência do Matriarcado, entendido aqui como Mulheres no Poder. Ela é firme, defende que a situação é grave, que é preciso negociar com todas as lideranças nas favelas e comunidades, e que a única solução agora é o ASSISTENCIALISMO como os mais pobres. Escute, Classe Média e Elite que passaram anos brigando por cada ponto das Políticas Públicas e fazendo o eleitores de otários. O momento é de união, solidariedade e ASSISTENCIALISMO. Assisti ontem Margareth Dalcolmo duas vezes. Uma, sendo entrevistada por Luciano Huck. Outra pela bancada da Globo News. Na segund

Diário da Peste 4

23.03 Meu pragmatismo (ou meu Anjo da Guarda, talvez os dois) me impulsiona a aprender o tempo todo coisas que talvez não use agora, talvez não me sustente imediatamente, mas quem sabe daqui a algum tempo? Como eu consigo esperar tanto? Escrevendo. Às vezes, publico. Outro coloco na “gaveta”. Publico meus livros esgotados ou inéditos no Kindle. Escrevo diários (desde os 11 anos). Foi assim que passei a restringir a partilha presencial de meus medos, objetivos, minhas soluções, raivas ou convicções. Porque existe uma diferença entre leitores e pessoas de carne e osso. Os primeiros são mais amorosos, têm menos preconceito com os diferentes. Talvez porque ninguém é obrigado a ler. Gosto mui

Diário da Peste 3

Nos últimos dias, tenho cometido erros de loquacidade com pessoas queridas que agem como querem e esperam que eu seja silenciosa, acolhedora, fofa quando interagem mal comigo. Ou talvez não esperem nada. Talvez queiram apenas ser ouvidas nesse momento horrível que estamos vivendo. Preciso muito praticar o silêncio e a escuta. Quem sabe assim mantenho o crítico interior sob controle? Escrevo porque posso. Porque sei escrever o suficiente para expressar meus sentimentos. Escrevo porque sou contra fóbica. Explico. Eu tenho medo das pessoas. Quando pequena, minha mãe, uma mulher que não tinha medo, dizia de mim: “essa menina é fraca e abusada. Não aguenta com um gato pelo rabo, mas, volta e meia

Diário da Peste 2

21 de março. Ontem, conversei com meu amigo Miguel. Conversamos sobre a Morte estar de tocaia. Pronta para dar o bote. E sobre as maneiras de ludibria-la. Billy Wilder disse: os pessimistas construíram piscinas em Beverly Hills, os otimistas morreram em Auschwitz. Não acho que a quarentena vai durar 14 dias. Para o pessoal que teve contato com os contaminados, veio do exterior é uma recomendação imperiosa. Mas para nosotros? Vai durar muito mais. Já estou armando o coreto. Enfrentei muitas escaramuças e adversidades nessa vida. Já vi a Morte. Eu tinha sete, oito anos, talvez, tive uma convulsão dormindo, caí da cama, vi minha mãe e minha avó gritando na Fé e eu ali, de pijama, em pé, olhando

Diário da Peste 1

Quem conta, seus males espanta. Estou fazendo a meditação recomendada no livro “O Grande Silêncio” do Alcio Braz já que não posso, por enquanto, voltar à meditação com Reiki que o Diego ministra no Eininji. A primeira semana foi de praticar a Observação. A dessa semana é a de Silenciar o Crítico. Começou ontem e me percebi, nos primeiros cinco minutos, a criticar vivos e mortos, quando caía no devaneo. Hoje, no quarto turno, fiz nove minutos sem nenhuma crítica. Só planos. Como esse diário. Fui andar no Parque Guinle perto às 6:45. Quase ninguém na rua. Ônibus vazios. Depois, fiz uma série pequena de pernas, braços e abdominal, seguindo o conselho de minha amiga Ana Cecília Springfield de nã

Posts recentes
Arquivo