Adultério
- Sonia Rodrigues

- há 2 dias
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Um dia desses, um cronista famoso me disse, numa mensagem de whatsapp: adúlteros têm cúmplices. Ou seja, para trair um compromisso amoroso é preciso que alguém concorde em trair junto.
Provavelmente, advogarei em causa própria já que sou, com muito orgulho, filha da “Outra”. Eu já traí meu compromisso monogâmico, já fui traída no meu compromisso monogâmico. Penso que o raciocínio do meu colega de profissão – o de dividir responsabilidades para diluir a “culpa”- é completa hipocrisia calvinista, estadunidense. Desculpe, colega, foi mal.
A “outra” ou o “outro” não é sócio de uma tentativa tosca de fazer test drive para conferir se o adúltero ainda tem bala na agulha para se apaixonar.
Porque é disso que trata o adultério:
Ainda sou capaz de seduzir?
Depois do test drive: ainda sou tão atraente que me tornarei a principal escolha?
Depois das repetições de performances bem mais ou menos: se eu não der bandeira de que a performance é medíocre alguém vai aturar o desprezo social para ficar comigo?
O principal no adultério hoje – depois que os peregrinos do Mayflower aportaram no Novo Mundo – é que terceiriza a culpa para além da cama do casal que o provocou.
Quando alguém me indica um filme não ficção estadunidense, eu pergunto: tem adultério? Porque se tiver, eu não assisto. Do meu ponto de vista, os estadunidenses precisam esclarecer tudo, responsabilizar todos e extrair um veredito. Precisam definir quem é vítima e quem é algoz. “ A quem devemos queimar na fogueira metafórica da nossa pureza moral?”
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