Me ensina a ser normal

A coisa mais fácil do mundo é um escritor ser desviado do seu objetivo. Do seu tema quando escreve não ficção. Da sua storyline. É provável que seja porque são tantas as possibilidades que fica difícil inibir o que vai invadindo o campo da escrita . Hoje, eu queria escrever sobre o direito à normalidade. Joguei fora uns 20 parágrafos desviantes antes de chegar até aqui. É arriscado crescer achando que a gente é diferente, para pior. Não estou aqui falando das diferenças individuais. Poderia, mas não estou. Estou me referindo a não ter o direito de aprender o básico, o mínimo que os outros aprenderam. Isso ocasiona desvantagem e condena quem não aprende a ficar do lado de fora das oportunidades. Ninguém aborda a raiva, o medo, a desesperança que acompanham quem está em desvantagem. O perigo que esses sentimentos representam. Todos os meus anos de convivência com gente de boa vontade, preocupadas com a educação, com o Brasil, com os pobres e nunca encontrei real interlocução sobre o que fazer com a raiva, o rancor, a vingança. As pessoas de boa vontade acham que ter raiva é bom. Não é. Porque a raiva não vem sozinha. E o rancor é uma coisa idiota, um exercício de vingança que só interessa a quem manipula perdas. A vingança, para quem tem raiva e tem medo, precisa passar pelo trabalho, pelo esforço, e precisa, constantemente, ser direcionada na busca de soluções contra a injustiça. Porque a raiva, por si só, nos joga num círculo vicioso. Raiva sem luta contra o que é injusto transforma quem está em desvantagem social em vítima. Uma psicanalista me disse uma vez que talvez um dia eu conseguisse superar a raiva que trazia dentro de mim. Um psiquiatra budista me disse, em outra ocasião, que eu devia evitar o rivotril, só usar quando estivesse à beira de matar alguém, porque minha raiva era muito produtiva. Eu escrevo. Quando ainda não havia conquistado o que já conquistei, eu tinha raiva e tinha medo. De ser ainda mais discriminada se perdesse a cabeça. Precisei lutar para entender o que os professores ensinavam, para aprender o que o chefe queria, para relevar as cantadas, os muxoxos de desprezo, os falatórios que vazavam de propósito. Para eu ouvir e saber que a torcida era do contra. É muito difícil evitar o caminho de predar ou o caminho de perder quando se tem que criar do nada o equilíbrio, o senso de justiça. É difícil também aprender a agir através de um emaranhado de convenções sociais para as quais a gente não foi preparada. Algumas pessoas em desvantagem chamam de fracas aqueles não se transformam em predadores. Só pensam que é fraqueza, falta de valentia na adolescência. Pensam assim antes do cutelo do verdugo da injustiça social se abater sobre elas. Porque o castigo, num país desigual como o Brasil, é certo para quem está em desvantagem e se mete a gato mestre. Para mim, o que faz quem está em desvantagem a se dar mal é a perda do equilíbrio entre o medo e a raiva. Quem desiste de lutar não adquiriu (ou perdeu)) a medida do perigo e da esperança. Considerando apenas o conjunto dos pobres inconformados e revoltados com vocação para vencer, criar, buscar felicidade no mundo. Entre os quais eu me incluo. A maioria do povo brasileiro. Sei do que estou falando. Cresci entre perdedores diversos. Não os culpo. É difícil se esforçar o tempo todo por dar certo. Também é verdade que o esforço de manter o equilíbrio transforma o esforçado num ansioso eterno. Eu vivo ansiosa. Carente. Oscilante. Não me envergonho disso. Eu venci em quase tudo, ter uma sequela ou outra faz parte.

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