Give me love

George Harrison hoje salvou meu dia. No final dos meus 40 minutos de transport (uma das coisas mais chatas da minha rotina de gorda tentando não ser mais gorda) coloquei o Concert for George e minha raiva passou. Porque tenho cortejado a parte mais sombria da raiva. Aquele lado negro da força em que nos arrependemos de acreditar nas pessoas, de ter investido nelas, de tê-las amado. Um especialista me disse uma vez que as pessoas projetam nas outras seus defeitos, qualidades e desejos. Sem consciência de que estão fazendo isso. Durante muito tempo me recriminei por não perceber as maquinações de pessoas queridas, das pessoas simpáticas, das pessoas legais. Um dia desses entendi, finalmente, que não percebo por incapacidade de fazer igual. Vamos examinar os mentirosos. Aquelas pessoas que mentem no automático. Mentem por hábito. Porque acham confortável ou bonito. Como escrevo para me manter viva, quando posso evitar mentir, evito. Na medida do possível, prefiro inventar histórias por escrito. Agora peguemos os que não têm amor aos compromissos financeiros dos outros. Cresci entre perdulários, entre almas do século XVI que não entendem as regras de banco, protestos, despejos, dívidas, contratos. Aprendi, a duras penas: Na falta de dinheiro, ou mais trabalho ou corte de despesas. Agora pensemos nos que dizem: te ligo amanhã, vou fazer segunda, sem falta, vou consultar meu chefe e já respondo. Acostumada durante anos a fio a aturar pessoas a não cumprirem com o que combinavam comigo, se combino, tento cumprir, se não cumpro, peço desculpas. Por último, falemos sobre aquele tipo que pobre conhece bem. Os que batem, pancada real ou metafórica, até a alma do adversário estar em pedaços no chão. Nada me irrita mais do que a inocência da premissa de que pobres quando se tornam perversos foi por causa dos maus tratos na infância ou na vida em geral. A maioria das pessoas de origem pobre que eu conheço não são perversas. Eu inclusive. Mas a brutalidade, realmente, deixa marcas difíceis de superar. Para mim, em especial a brutalidade sonsa. Tento com afinco não ser bruta com as pessoas. Não chutar quem está no chão. Não usar expressões do tipo “jura?” ou “essas coisas precisam ser combinadas”, “tem certeza de que você quer fazer isso?”. Quando estou com raiva sou capaz de listar umas 50 expressões destinadas a fazer com que o interlocutor se sinta inferior e infeliz. Expressões das quais já fui alvo. A maldade desnecessária, a delinquência contumaz, o sadismo corriqueiro, prosaico me causam repulsa. Daí a raiva. Por isso, eu estava – até George Harrison me salvar hoje, na academia – oscilando à beira do precipício de ser malvada comigo e com os outros. Refaço todos os dias a decisão de não ser malvada. Não é por falta de talento para a maldade. Nem por falta de prática. Evito ser malvada por lucidez. E fé. Tenho medo de passar 500 anos do outro lado do rio Letes carregando pedras. De novo. Ou aprendi alguma coisa carregando pedra do outro lado do rio Letes. O certo é que desaprendi a colocar bola de gude no caminho das pessoas. O ruim é que as pessoas continuam colocando bola de gude no caminho em que corro a maratona que me coube por carma. A música me deu fôlego para fazer ainda minha serizinha básica de musculação. Quando voltei escutando a Deusa dos Orixás, outra música com muito Axe, um moreno, alto, bonito, de carapinha branca olhou para mim, no ponto de ônibus. Eu devia estar sorrindo com a música porque ele me lançou um olhar apreciativo como só os homens mulherengos sabem lançar. Achei tão divertido eu – gorda, sem maquiagem, de óculos, descabelada depois de rolar no colchonete com pesos e caneleiras – receber um olhar apreciativo daqueles que continuei andando e, quando cheguei mais perto, dei um sorriso pequeno. Quase gargalhei quando ele me deu uma piscada, com o olho esquerdo. Piscada perfeita, na medida, para um galanteio de rua. Quando subi, a espada de São Jorge que tenho no escritório estava de água trocada por meu braço direito em casa, Aparecida. É ela também é quem mantém a arruda, o guiné, o Comigo ninguém pode e as Espadas de Santa Bárbara verdes e bem cuidadas. O detalhe é que Aparecida, minha querida amiga e auxiliar há nove anos, é da Assembleia de Deus e escuta rádio evangélica o dia inteiro, aqui em casa, quando vem trabalhar. Aparecida perdeu a mãe quinta-feira e veio hoje. E trocou a água das plantas de força, do mesmo jeito. E nós duas nos abraçamos no sentimento de tristeza e comentamos o quanto a mãe dela foi abençoada por ter sido levada, rápido, sem ficar sofrendo em cima de uma cama. E ela contou das premonições das pastoras acerca da morte. E nós tornamos a nos abraçar porque somos duas mulheres de fé e acreditamos que exista justiça. Pelo menos do outro lado do rio. Nem tudo está perdido. Ainda existem homens brasileiros que sabem ser alegres num galanteio sem objetivo de ir adiante. Ainda existem brasileiras capazes de conviver com crenças distintas, sem jogar pedra em quem entende a fé de maneira diferente. Give me hope, Help me cope, with this heavy load Trying to, touch and reach you with heart and soul. Eparrei, Oya, me dê forças e alegria para que eu me mantenha uma pessoa justa e confiante. Sem arrependimentos malvados.

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