Fronteiras

Primeiro foram os churros. Não os churros de Madrid que eu comia com chocolate quente, grosso, igual ao que minha avó fazia, nas duas vezes que estive na Espanha. Os churros daqui, recheados de doce de leite. Depois foram as esfiras do árabe do Largo do Machado. Em seguida, o chocolate Talento lilás, e, por último o capucino diet da Kopenhagen que, graças aos céus, saiu de linha. Esses pequenos hábitos diários atormentaram e enfeitaram minha existência nos últimos anos. Buscando compensar a falta maior, a do cigarro, a melhor companhia de quem escreve. Pelo menos dois quilos acima do peso que defini para mim como suportável, vou abrindo mão de cada delícia que enfeita minha vida. No início, abrir mão de coisas boas, dói. Depois, vou me acostumando até a indiferença. Esses dias, uma pessoa me disse: todo mundo pratica bullying. Retruquei: eu não pratico. A resposta, me pareceu engraçada: este é o motivo pelo qual em algum outro planeta, conterrâneos seus estão dizendo: volta, Sonia, volta. Achei engraçado porque é exatamente assim que me sinto quando preciso que alguém me explique o que acontece na Terra. Uma marciana. Faço isso cada vez menos, hoje em dia só três ou quatro pessoas são incomodadas com as minhas dúvidas. Tenho anotado num caderninho mental as evidências de que tal e qual obstáculos levaram a resultados X e Y e as anotações têm me permitido evitar dissabores. Pena que não evitem a vontade de fumar, nem a vontade de comer chocolate numa represália idiota contra os aborrecimentos. Qual é a graça de uma represália que aumenta o meu peso e deixa um cheiro ruim na minha pele? Nenhuma. Estou conferindo a revisão do meu novo romance “Fronteiras” nos intervalos da leitura de trabalhos alheios e do segundo tratamento de um roteiro meu. “Fronteiras” é uma boa oportunidade de eu perceber o quanto amadureci ultimamente. Porque lendo este livro vejo que coloquei na literatura coisas que eu não percebia na vida real. Estava tudo ali, eu era cega (ou marciana) no dia a dia, mas na literatura em sabia como o mundo funcionava. “Fronteiras” também coloca no eixo, coloca em proporção o deleite das pessoas de carpir o que fizeram (ou sofreram) no passado e, pior, o de condenar apenas os outros, se eximindo da responsabilidade pelos eventos. Eu já fiz isso muitas vezes. Um dia eu me queixava dos meus traumas (que não são imaginários ao contrário, são consideráveis) alguém me disse que ser queixosa não era minha característica mais atraente. Foi como um portal se abrisse para mim: Ah, isso que todos fazem é feio, aprendi errado, olha que coisa! Porque toda minha vida, ouvi (e ainda ouço): “Assaltei um banco, mas foi porque meus amigos da roda de crack disseram que era a solução dos meus problemas” ou “fundei banco sem lastro porque meus colegas de golfe disseram que era a solução dos meus problemas”. Para o queixoso o outro é sempre o culpado, quem relata é vítima com razão. Eu gostaria que essa lucidez e o prazer em reler meu livro querido fossem o bastante para suprimir a vontade de fumar, comer chocolate, dizer para as pessoas o que elas não querem ouvir. Escritores só deviam falar amenidades. Bom dia, como vai, você está linda, é mesmo, que engraçado, claro, você tem toda razão… Escritores devem reservar suas verdades para a ficção porque é o que sabem fazer quando são realmente escritores. Só desrespeito essa regra porque tenho medo de ficar muda se deixar para conversar apenas com os habitantes do meu planeta de origem.

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