Amor e raiva

Tudo o que escrevo tem a ver com as histórias que eu vivi ou que me contaram. Hoje quero escrever sobre o trabalho que dá o amor e os perigos que o rancor e a raiva trazem a quem ama. Vou começar pela história de uma mulher que eu admirei muito e que fez de tudo para não se envolver numa divergência de família. Ocorre que de um lado estava uma pessoa do seu próprio sangue e do outro uma aliada. Quando essa mulher ficou doente, a pessoa que estava no poder da família foi quem cuidou de tudo. A outra estava alijada e não pode ajudar . O resultado foi uma morte horrível e desnecessariamente dolorosa. Durante anos a aliada havia sido a única pessoa a cuidar da mulher valorosa em momentos decisivos. Mas nem isso foi levado em consideração frente a doença. O rancor cega, o rancor é injusto, o rancor sacrifica tudo no altar da depressão raivosa. Vi o rancor de pessoas que se decepcionaram com companheiros e sonhos amorosos ou políticos. Essa decepção destroçou a capacidade dessas pessoas de perceber em que medida se pode confiar em amores, pares, aliados e adversários. Ficaram envenenados pela ira justa. O que adianta a ira, se traz infelicidade? Eu já vi uma mulher de grande capacidade amorosa, grande mesmo, talvez uma das maiores, se perder na vida enlouquecida pela raiva oriunda da decepção. Não foi uma raiva qualquer, não foi exatamente rancor, mas foi a retaliação cega, a fúria diante da injustiça amorosa. Este é o material da minha escrita. Meu espanto e meu encanto sobre as maneiras diversas que os seres humanos reagem ao amor e a decepção. Eu já me decepcionei várias vezes com pessoas amadas. Amores de todo tipo já partiram meu coração. Mas, hoje, os únicos erros que me importam de verdade são os meus. Nesse sentido, estou como Próspero, abro mão do poder de ficar carpindo os erros alheios. Eu costumo me sentir infeliz e insegura com as críticas as pequenas falhas sociais minhas. Pessoas, próximas ou não, ficam apontando, as vezes com suavidade, as vezes com aspereza, as vezes de forma desleal as minhas falhas. Ocorre que eu cometo mesmo esses deslizes. E as pessoas apontam porque me exponho. Como escritora, como alguém que gosta de falar sobre “coisas”. Igual a inconveniente irmã caçula de “Razão e Sensibilidade”. Admitindo isso notei que a desaprovação permanente pode ser usada a meu favor. Posso tentar me corrigir, posso evitar cometer esses lapsos perto de pessoas que são suscetíveis a ponto de se sentirem atingidas por minha falta de modos. Mesmo quando são incapazes de perceber os próprios deslizes. Uma última constatação sobre meus erros. Sempre achei importante dar mais de uma chance para pessoas de valor ou para pessoas que me pareciam atraentes de alguma forma. A segunda, terceira, centésima chance já me colocaram em várias ciladas. Durante muitos anos, achei que fazia isso porque era otária, não percebia que era da natureza de algumas pessoas só ver o lado delas, sem se importar em machucar os outros. Outras vezes, eu concluía que meu problema era não saber alinhar expectativas. Em quanta bobagem eu já acreditei! É simples a explicação. É da minha natureza colocar na frente de tudo a esperança de vencer o infortúnio. A esperança na vitória do talento sobre a mediocridade. É da minha natureza colocar na frente de tudo o bem estar das pessoas que amo, especialmente as mais indefesas. Por isso, relevo pequenos, médios, grandes defeitos. Se os outros não relevam os meus, problema dos outros. Preservar o amor, preservar minha capacidade de amar (e aí incluo a partilha do que escrevo) são o objetivo da minha jornada. Preciso abrir mão do rancor, relevar fraquezas alheias, evitar expor as minhas para manter esses objetivos?

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