Samba

Ontem assisti, pela segunda vez, o filme com Omar Cy, lindo, lindo, lindo como um leopardo negro. Depois do filme me peguei pensando nos muitos caminhos que existem para sobreviver à desaprovação alheia. Criei uma personagem, certa feita, que era um poço de desaprovação. A mulher de Natan no meu livro “A rainha que atravessou o tempo”. O que me chamou a atenção na época foi que a pessoa que mais inspirou a personagem não se reconheceu. É verdade que não foi uma pessoa só. A desaprovação é a atitude que mais conheci nessa vida. Já fui desaprovada pela minha origem, por meus objetivos, por meus amores e sempre por minhas atitudes e falas. Minha salvação é que fui protegida por um certo retardamento carmico que me impedia de perceber as atitudes sociais de desaprovação ou menosprezo. Por outro lado, a coisa mais triste com que tenho de conviver é que, de súbito, passei a identificar a desaprovação sutil ou descarada. Algumas pessoas se protegem da desaprovação negando sua origem e assumindo outra. Às vezes, até trocando de nome. Eu entendo que façam isso. Em certa medida, eu já fiz coisas parecidas. O que entendo menos, é como pessoas sensíveis, esclarecidas e, o que é pior a favor do respeito à diversidade, gostam de fazer as pessoas se sentirem desconfortáveis usando a desaprovação. Eu não sei se é por gosto ou por vicio, por aprendizagem do vicio. Suponho que algumas pessoas desaprovam o tempo todo, de forma sutil ou aberta, porque aprenderam a fazer assim. Em nossos tempos politicamente corretos, essas pessoas não desaprovam as minorias que aprovam. Não. Desaprovam apenas aqueles que agem diferente do que acham correto. Fazem “recortes” em sua lista de amizades e afetos. No meu próximo romance, “Fronteiras” trato de uma outra atitude que conheço também de perto que é a ambigüidade. Depois de ter conseguido colocar um ponto final nesse livro percebi que aceitei minha vida toda pessoas desaprovadoras para me proteger das pessoas ambíguas. As que dizem que amam, mas não cuidam, as que dizem que vem, mas não vem, as que não sabem exatamente o que querem e certamente não querem pagar o preço. Uma das melhores coisas em “Samba”, como em qualquer dialogo sincero sobre a condição humana, é o flagrante do preço da desaprovação e da ambigüidade. O amor e a vida dependem da gente conseguir “nadar” entre essas duas ilhas e não habitá-las. É muito difícil.

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