Promessas de Ano Novo

Escrevo hoje para agradecer aos amigos que me escreveram pelo meu aniversário e curtiram o que minhas queridas filhas escreveram. Escrevo também em homenagem a minha amiga Cris que hoje me deixou um cartão lindo de parabéns com o desenho de uma mulher de camisola discreta e meias pretas. Na mosca, querida. Na vida, acredite, tudo passa, menos a camisola de seda e as meias 7/8. Eu me exponho através da escrita há 50 anos. Desde o curso preparatório para admissão ao ginásio, no Colégio Franco Brasileiro. Eu era magra (ó saudade!), tímida, fóbica, mas quando a professora pedia voluntários para ler em voz alta a redação, em frente à turma, eu sempre levantava a mão. A escrita para mim é o caminho da visão, da partilha, do exorcismo. Talvez por não ser capaz de entender porque as pessoas são tão discriminadoras, por nem ao menos entender, o quanto as pessoas estavam sendo discriminadoras. Provavelmente por saber que a expressão do pensamento, do sentimento é um caminho de redenção e que a palavra “sagra os reis, exorciza os possessos, é a arma dos oprimidos”, como deixou registrado Osman Lins. Eu me tornei comunista porque desejava ser jovem e igual aos outros. Me profissionalizei como escritora para me manter jovem e suportar não ser igual aos outros. Estudei a escrita e tentei partilhar minhas descobertas, criando o Almanaque da Rede porque sabia, por experiência própria, que nem todos os jovens conseguem sobreviver nesse pais sem saber escrever. Tenho muito orgulho do que fiz nesses 50 anos para enxergar e traduzir o mundo, para dividir conhecimento e para exorcizar as marcas que fui adquirindo no caminho. Todas provenientes do esforço de lidar com pessoas. As marcas mais difíceis de exorcizar para mim foram as provocadas pelos donos da educação no Rio de Janeiro e no Brasil. Levei anos para aceitar que algumas pessoas simplesmente não querem que a juventude aprenda a escrever. Por isso precisam discriminar quem tenta interferir. Levei anos para aceitar que pessoas privilegiadas não fazem a menor questão de deixar que alguém fora de sua patota seja criativo e partilhe a leitura e a escrita. Até hoje não sei se os obstáculos no meu caminho foram colocados porque os donos do dinheiro não entendem o potencial da leitura e da escrita, porque os burocratas só conseguem aceitar seus pares ou por pura antipatia por uma escritora que não sabe pertencer a panelas. Hoje eu estava lutando no Transport contra os efeitos do churrasco de ontem (ah, quantas delícias!) e pensando em escrever aqui com nomes e exemplos. Mas tenho um preceito que é o de não evocar gente babaca no meu texto. Conspurca. Alguém muito querido me questionou sobre minha tendência a colocar ordem no caos, mesmo quando os outros não querem sair da bagunça em que vivem. Essa querida tem razão, claro. Mas o problema é que contar histórias, se expor por escrito é um esforço de ordenar o caos. E um esforço de quebrar a super ordenação que mata o que é pungente, colorido, pessoal. Talvez o meu erro tenha sido partilhar minhas histórias e meus pensamentos também ao vivo e a cores. Com certeza errei por insistir em fazer isso com os que vivem bem no caos ou na super ordenação de suas vidas. Coisa de tímida e fóbica que não aprendeu a distinguir como os terráqueos ficam escutando marcianos falarem, falarem, falarem para depois articular como mandar os ETs de volta para seu planeta. Hoje, no entanto, vejo que dezenas de pessoas se manifestaram pelo meu aniversário, alguns com palavras tão carinhosas que me levaram às lágrimas. Várias declarações de afeto vieram de jovens que aprenderam a escrever e a se posicionar no mundo comigo. Outras de quem lê meus livros há anos. De quem insiste comigo para eu me concentrar nas histórias e deixar o patrimônio do burocratas pra lá. Até quem eu partilhei sol e beijos há décadas, lembrou de me desejar feliz aniversário. Obrigada a vocês todos pela partilha de afeto. Além de tudo isso, minha filha Barbara fez uma página para meu livro novo e mais de 300 pessoas curtiram. Não sei se isso é muito ou pouco, mas eu espero que tenham comprado e lido Fronteiras. Este seria o melhor presente coletivo que eu poderia ganhar. Aos 60 anos, bem sobrevividos, prometo que vou tentar deixar pra lá os que desejam o caos, os que desejam a super ordenação, os que ficam ressentidos por eu intervir onde não sou chamada. Prometo que vou tentar evitar a companhia dos que têm restrições a gente de carne e osso. Prometo que vou tentar buscar apenas os que fazem questão das minhas histórias, das minhas diretivas de sempre em frente e pra cima, do meu sorriso torto, da minha falta de jeito, dos meus cachos. Vou deixar para lá tudo o que significa generosidade ilícita, controle seguido de rejeição, e, principalmente, vou evitar rejeição dos que são de outro planeta. Sei que são objetivos difíceis para quem não enxerga bem armadilhas próprias ou alheias. Mas quem têm os amigos e o Anjo da Guarda que eu tenho, consegue.

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