Escrever é ouro, falar é prata, o silêncio mata

Assisti a um grande filme argentino esses dias. O Clã.

Pedro Almodóvar produz e fiquei pensando que o espanhol anda com a faca nos dentes. Relatos Selvagens ainda é engraçado, mas esse último, baseado numa história real, passada na ditadura argentina, é “na veia”.

O protagonista me lembrou Eduardo Cunha. O mundo pode vir abaixo de evidências e ele continua se declarando inocente.

Comentei com um amigo argentino o quanto os cineastas de lá não perdem a oportunidade de dar na cara da ditadura derrubada, presidentes presos, condenações a prisão perpétua, torturadores desmascarados. Meu amigo respondeu: a ferida foi grande demais, inesquecível.

Um dos temas do filme é a falta de transparência em relações amorosas. Ou melhor, o silêncio entre pessoas que se amam.

A minha vida inteira odiei o silêncio que oculta conflitos. O fazer de conta que as pessoas próximas não estão nos magoando, mentindo, omitindo ou sendo, apenas, injustas.

Acho que muito da minha militância política se deveu à minha identificação com o silêncio compulsório dos oprimidos. Por causa dessa identificação, eu fazia de conta que não existiam as mentiras, as omissões, as injustiças também no agrupamento no qual militava. Eu e milhões de pessoas praticávamos esse erro de visão.

Sempre que eu descobria que estava enredada num novo tipo de silêncio, botava a boca no mundo e, com isso, me aborrecia horrores com aqueles que pretendiam que os erros eram cometidos a nosso favor. Ou tinha atenuantes. Por isso, não devíamos denunciá-los.

De um tempo para cá, tenho me esforçado para aprender a ficar quieta.

Mal que não tem cura, para que te apuras? Dizia meu avô espanhol.

Adianta discutir se pessoas mentem e acreditam nas próprias mentiras?

Adianta discutir se o outro lado não escuta e não pretende mudar de opinião?

Adianta tentar interagir quando não existe interação possível?

Penso que existem pessoas mentirosas, pouco empáticas, desaprovadoras, territorialistas como existem pessoas de olhos verdes ou de pele clara, escura ou de estatura mediana. Não há o que fazer, elas são assim. As pessoas podem diminuir a barriga, alisar o cabelo, usar lentes. Mas nem essas mudanças adianta sugerir

Depois de assistir “O Clã” fiquei meditando que meus “olhos verdes”, minha característica inata é a tendência empedernida de dizer o que penso, observo, sinto.

Conheço pessoas capazes de pequenas, medias, grandes crueldades que foram poupadas dos meus dois defeitos graves: identificar o que está rolando e questionar o que está rolando.

Pois tenho o prazer de comunicar aos me aturam, aos que me admiram, aos que gostam de mim: estou exercitando o ficar quieta.

Da mesma maneira que consegui passar a campanha eleitoral batendo boca apenas umas três ou quatro vezes (ninguém é de ferro!) e consegui abrir mão de uns 70% da herança espanhola que me habita, pretendo conseguir também parar de falar das minhas descobertas que conflitam com as dos que me rodeiam.

Só vou escrevê-las.

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