Denominadores


Escutei alguém dizendo: não quero mais denominadores na minha vida.

Procuro no dicionário e encontro: “Denominador, na fração, é o número que fica em baixo. É o número que indica em quantas partes iguais será dividido o número de cima”.

Sempre aceitei bem ser dividida entre interesses aparentemente conflitantes. Até que, um dia, comecei a eliminar os denominadores. Grupos, objetivos, pessoas, padrões meus que atrapalhavam seguir adiante.

A frase “não quero mais denominadores...” dificilmente seria pronunciada por mim. Entendo a necessidade de não ter a atenção dividida, mas penso que deve ser triste e entediante ficar inteira, mas imersa sempre na mesma rotina, com as mesmas pessoas, os mesmos prazeres, os mesmos desgostos.

Aprendi a contar com minha avó espanhola. A somar palitos. Subtrair palitos quebrados. Dividir gomos de tangerina. Como ela ensinava a multiplicar? Não lembro. Lembro das tabuadas de Monteiro Lobato.

Observo as pessoas que assumem não querer se dividir. São várias no meu convívio. Estão bem com o que fazem, mesmo que não gostem muito, com o mundo em que vivem.

Às vezes, a gente diz querer mudar rumo, mas, na prática, é difícil lidar com denominadores. Mais difícil ainda é conseguir pegar a fração que não combina com o rumo novo ou com o objetivo desejado e subtrair. Talvez para sempre. Jogar fora.

É como dizer “quero emagrecer”, “quero parar de fumar”, “quero beber menos”, “quero viajar mais”, quero.... mas não subtrair o que atrapalha. Para não aturar denominadores.

Enfim, acho que a gente precisa decidir, o tempo todo, quantas moedas, ou quantos desejos, temos na mão para gastar na feira, quer dizer, na vida.

Decidir, sem auto engano, é difícil.

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