Almodovar


Almodovar

Assisti Julieta e me peguei pensando como algumas pessoas muito legais são ressentidas, competitivas, injustas.

De nascença? Por contagio? Aprenderam?

Quem vai saber o que leva um ser humano a fazer maldades? A retaliar por feridas reais ou imaginárias.

Eu não sei, acho que ninguém sabe. Por isso, alguns, reconhecida a própria ignorância das causas, se limitam a contar as histórias. Como faz Almodovar em Julieta.

O filme mostra como o ressentimento é uma emoção ativa. É sempre contra alguém. Não é raiva, não é vingança, não é justiça. É punição, é manipulação da culpa do outro.

O pior de tudo é que o ressentimento leva os ressentidos para armadilhas de onde, muitas vezes, só saem na porrada. Porradas da vida.

Alguns ressentidos não saem nunca do círculo de giz. Ficam ali para sempre, como charuto em boca de bêbado, como peru em roda de giz.

No balança, balança, mas não caí. Na crença de que estão presos ao pequeno espaço ao qual o ressentimento os confinou.

Como muitos dos filmes de Almodovar, Julieta é um filme sobre mulheres. O efeito de mulheres ressentidas sobre as melhores vítimas do ressentimento. As mulheres culpadas.

Mulheres são um prato feito para o ressentimento e a culpa. Onde foi que eu errei? Será que não amei o suficiente? Será que não fui boa o bastante? Por que fulano, beltrano, sicrana não me ama mais?

Porque fulano, beltrano, sicrana são pessoas ressentidas, mulherada!

Não há o que fazer contra os ressentidos. Nada. Pode desistir. O ressentimento corrói quem é ressentido e mata seu alvo. Por depressão, por incompreensão da fatalidade.

Quem não quiser morrer de depressão sendo alvo de ressentidos deve aprender a pedir desculpas mesmo quando não errou. Deve aprender a agradecer às críticas justas ou injustas dos ressentidos. Ou aprender a mandar os ressentidos de todas as espécies à merda.

Porque, como nos ensina Almodovar, por meio do Terror e Compaixão preconizados por Aristóteles, só uma porrada muito forte do destino cura um ressentido.

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