Leveza não é escolha

Uma adolescente de 14 anos e a mãe de 37, ambas suburbanas, visitaram uma tia avó muito simpática na Zona Sul. Sem avisar. Foram recebidas com festa pela tia e pelas primas (da mãe), se colocou discretamente mais água no feijão, histórias divertidas alegraram o almoço. A tia não perguntou porque a sobrinha aparecia ali depois de tantos anos sem dar notícias. A sobrinha não informou que estava ali para pedir ajuda. A despedida foi calorosa como a recepção. Leve.

Quando saíram, a mãe virou para a filha e disse: não temos para onde voltar.

E o destino seguiu adiante, porque as pessoas que não têm para onde voltar, às vezes, conseguem seguir em frente, por mais que a vida dê voltas. Depende das circunstâncias e da Sorte, claro.

Mais tarde, a filha se tornou esposa e mãe, severa, dedicada, estoica. Melancólica, talvez.

Foi trocada por mulheres leves, duas vezes. Uma pelo marido. Duas, pelo amado que teve a sorte de encontrar.

Brecht escreveu um poema lindo chamado “Aos que vão nascer”. Conta pequenos flagrantes de uma época dura.

Se fosse possível ensinar alguma coisa às mulheres já nascidas, eu diria: sejam leves. Caso não consigam, porque a vida foi áspera demais, como na falta de sinceridade da visita acima, eu diria: Mintam.

Não confessem - nem sob a tortura auto infligida de um grande amor - o peso da existência que as habita.

Seres humanos não precisam de sinceridade. Precisam de leveza.

Penso que é uma medida de auto defesa. Preocupação sincera pode despertar pedidos de ajuda. Pedidos de ajuda podem desencadear palpites sobre como conduzir a vida.

Quem deseja para si a tarefa de ajudar ao próximo, próximo ou distante?

Quem está disposto a receber ajuda em troca de um receituário? Para emagrecer, para se livrar de um marido mal humorado, de um amante ambíguo. Ou, simplesmente, para corrigir desequilíbrios na amizade?

Depois de tudo o que vi, ouvi, vivi, se eu pudesse, ensinaria às jovens mulheres a não serem estoicas para terem a chance da leveza.

Estoicismo não está com nada. Poucas coisas, na vida, merecem ser engolidas a seco, na esperança que é por pouco tempo. Não é.

Mulheres estoicas costumam passar a vida segurando a onda dos pobres coitados que não seguram a onda. É perda de tempo. Faz parte da vida submergir nas ondas que as próprias pessoas criam.

Mulheres estoicas criam a sua volta a impressão de que não precisam ser cuidadas. Estão se enganando e enganando os outros. Todo mundo precisa ser cuidado, amparado, poupado.

As pessoas são leves quando foram poupadas na vida. São leves quando se defendem bem do peso alheio. São leves quando ignoram a dor a sua volta.

Leveza, como loucura ou drogas, não é para quem quer. Leveza é para quem pode.

O fingimento, no entanto, pode e deve ser aprendido.

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