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Fronteiras


Faz tempo, publiquei um livro que eu gosto muito. A protagonista se chama Letícia e é uma adolescente que come o pão que o diabo amassou, mas consegue escapar das armadilhas que o destino colocou em seu caminho. Sozinha. Com alguma ajuda de outro personagem que eu também tenho muito orgulho. Felício.

Felício se acostuma com mulheres confortáveis. Letícia não é confortável, claro. Mulheres que escaparam de muitas armadilhas não costumam ser confortáveis. A vida foi áspera demais com elas, então, eu suponho, têm arestas demais para um homem que espere conforto assumi-las.

Hoje, me peguei pensando numa “Letícia” que eu conheci em Irajá. Murmurava-se que era uma garota “desfrutável” porque os pais eram separados e ela andava atrás de um aprendiz de boy lixo por quem eu fui apaixonada. Uma noite, eu vi essa moça, não devia ter mais de 16 anos, no ponto de ônibus com ele. Tarde da noite, esperando o ônibus para Cascadura onde, diziam, ela morava.

Penso hoje, depois de tantas histórias contadas, que ela era mais uma das mulheres “vulneráveis” que eu conheci na vida. Mulheres que vivem o amor, a família, o trabalho em situações de desvantagem. Os motivos são os mais variados, mas um é o mais forte para mim. São ou foram mulheres que não encontraram guarida, proteção, apoio. Não foram escolhidas. Ou não encontraram quem as apoiassem.

No meu livro “Do que os homens têm medo” também existe uma jovem assim. Uma sem nome no conto “Dói, por isso esqueço”. Para compensar a vulnerabilidade dela, aparece a “impagável” Bela (palavras do escritor e crítico Flávio Carneiro) que negocia com o destino.

Olhando para trás, penso que nem sempre mulheres vulneráveis conseguem negociar com a vida. Mas, quando escapam do destino que aguarda as pessoas em desvantagem conseguem sozinhas. Como Ulisses que só consegue alcançar Itaca quando todos seus companheiros se perdem pelo caminho. Só conseguem escapar quando desistem de carregar sobrepeso.

Desistir é sinônimo de tristeza no meu vocabulário, mas, às vezes, é melhor ser triste do que ser vulnerável.

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