Oferenda

Hoje matei cerca de 400 arquivos escritos por mim.

Venho me prometendo, há alguns anos, limpar meu computador dos arquivos do passado. Sempre que tentava, a tarefa me parecia impossível. Lia o que tinha escrito e encontrava um parágrafo doloroso demais e parava. Ou então duas ou três frases com valor literário em meio a 30 linhas de cotidiano chato, abaixo do meu padrão de honra e excelência. Parava também sem saber onde colocar.

Hoje, resolvi o problema. Eliminei um diretório inteiro. Depois, persegui esse diretório por todos os backup que existiam nas entranhas dos meus ex-computadores e hds externos. Em seguida, passei minha cimitarra metafórica em vários rascunhos de contos que estavam ligados ao mesmo diretório. Autobiografia malfeita, ficção de quinta, “matar, matar, matar” é o meu princípio dramatúrgico.

Salvei pouca coisa. Três contos para ser mais exata. Eróticos, fortes, vingativos, sanguinários. Não estão prontos, claro. Pode ser que nunca sejam publicados. Mas foi o que sobrou da minha “limpeza das cavalariças de Augias”. Retirei boa parte do esterco de emoções inúteis, das palavras gastas em contar histórias, expressar sentimentos a uma, duas, dezenas de seres que não significam nada. Maus personagens de tramas inúteis.

Tem certeza que deseja apagar o lixo definitivamente? Me pergunta a tela. Eu confirmo e minha oferenda está feita.

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