Os que se enganam


Minha amiga Malu de Martino notou que não tenho escrito no FB. É porque estou tentando não partilhar minhas opiniões nesse momento tão grave pelo qual estamos passando.

Eu acredito (como o Vadinho, aquele delinquente contumaz) que só o que importa é o amor e a amizade. As duas coisas nos fazem suportar as dores, as guerras, a praga.

O problema está em que essas coisas dependem de um mínimo de senso de justiça. Não faz mal ser mentiroso, ou desleal. O problema está em tentar impingir que se é sincero ou leal quando se planeja a mentira.

Todo ano, perto do meu aniversário, entro numa crise de lucidez. Lembro disso desde que tinha... oito anos. É como se fosse um grande quebra cabeça. A cada ano acrescento um pedaço e, em geral, muita gente próxima é desmascarada, o que é bastante triste.

Como tenho tara por honestidade intelectual, eu também perco, a cada ano, um pedaço das meus amparos de auto ilusão.

Por que tantas pessoas – eu, inclusive – procuram o fracasso? O fracasso dos sonhos, a tirania dos medíocres espertos, o abrir mão do encontro amoroso, a ilusão de que estamos em comunhão com quem não está de verdade do nosso lado?

Penso que um dos motivos é que nós odiamos a lucidez. Muitas pessoas – as que eu conheço e as que vejo em notícias nos jornais – têm orgasmos com as mentiras que contam para si mesmas e para os outros. Substituem os orgasmos físicos pelas mentiras com que elas se auto hipnotizam.

Eu devo ser marciana. Porque para mim, mentira é mentira, orgasmo é orgasmo, e adorar só aos deuses (já que sou politeísta assumida).

Eu admiro muito gente honesta.

O problema é que admiração é, para mim, a base do amor e da amizade. Como posso ser amiga ou amar gente que sempre inventa histórias amadoras? E sempre as mesmas? Gente que espera conseguir tudo sem pagar o preço?

Clara Mello vinha enviando newsletters que consolavam. Ela parou, não sei se de propósito. Igo Ribeiro está com dor. Outras pessoas de carne e osso que eu conheço têm selecionado o que escrevem. Talvez, repito, pelo momento em que vivemos. Para quem não precisa de gente, para quem não precisa dizer o que pensa ou o que sente, deve ser fácil. Aqui, em Marte, dói pra caramba.

Vai passar, digo para mim mesma. Ou o que é ruim passa ou alguma coisa muito boa chega para mim nos próximos dias. Eu acredito nisso. Porque, em geral, ganho bons presentes de aniversário.

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