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Um acordo pecaminoso

Um acordo pecaminoso

Existe um acordo pecaminoso entre os romances históricos (como Bridgerton) norte-americanos e a ética protestante – calvinista - do trabalho. Por isso, as autoras vendem milhões de exemplares.

Sou fã do folhetim. Considero que o folhetim é imortal e salva. De todas as formas de contar histórias, essa talvez seja a que atinge mais facilmente as pessoas.

Sou fã também da ética protestante do trabalho. Fã bem relutante devo dizer. Acho que os calvinistas e a visão de salvação via trabalho que engrandece e danem-se os outros é eficaz, porém perigosa. É eficaz porque evita o vitimismo, obriga o crente a lutar por si mesmo, a não esperar que a ajuda venha dos outros. Perigosa porque tem como consequência a ideia de que a culpa pelo fracasso é de quem não trabalhou o suficiente. Os perdedores.

Depois do sucesso de Bridgerton, resolvi dar uma olhada nos folhetins do mesmo tipo.

O que me chamou a atenção nas autoras de “romances históricos” norte-americanos foi a criação deliberada de “nichos” marqueteiros. Além da pilhagem narrativa.

O marketing das editoras deve ter descoberto que o público feminino que consome esses livros gostaria que existissem:

Homens que têm tesão e valorizam mulheres valentes, voluntariosas, que dizem o que pensam até mesmo quando são grau 1 de autismo;

Homens que sabem transformar a primeira vez de uma mulher em fogos de artificio, com um mínimo de dor e o máximo de prazer;

Homens capazes de negociar alianças com as mulheres amadas em troca do tesão que se mantém durante trinta anos de casamento no mesmo patamar dos primeiros trinta dias:

Homens que espancam quem se atreve a magoar ou machucar as mulheres que eles amam.

O que fazem as autoras? Pegam Dickens e seus retratos de Londres com a exploração de mão de obra infantil, os limpadores de chaminé, misturam com as fazedoras de anjos que matavam bastardos recém nascidos com ópio, jogam no liquidificador e pimba: apresentam a vitória do trabalho e talento dos renegados contra os preconceitos sociais. Como os renegados triunfam? Levando para a cama virgens aristocráticas que se deslumbram com a capacidade fálica dos que são plebeus pela metade ou dos aristocráticos falidos que aprendem a trabalhar para horror de seus pares preguiçosos, jogadores, bêbados.

Trabalho e sexo dignificado com o casamento. Nada de renúncia e tragédia como “Um conto de duas cidades” de Dickens.

E tome-lhe desempenhos extraordinários na cama, bem descritos e coreografados. Sempre começando com as manobras clitoriais, claro, porque homem bom de cama não acredita nessa bobagem freudiana de orgasmo só com a penetração.

Destaque para Lorraine Heat e Lisa Kleypas, as rainhas da pilhagem narrativa com toques feministas. Os romances históricos (total folhetins!) se passam quase todos na Inglaterra, apesar delas serem norte-americanas. Como Julia Quinn.

Também como é que seria possível fazer romance de época, nos EUA, com o problema racial que eles viviam no século XIX? Só em 1967, casamento entre pessoas de cor diferente foi permitido no país.

Ocorre que o mesmo modelo é usado em romances passados no Texas atual (evitando cuidadosamente a questão racial, claro) abordando o transtorno de personalidade narcísica ou numa trama STEAM como a do livro “A hipótese do amor”.

Talvez os marqueteiros e escritores e roteiristas brasileiros sejam tímidos em relação a misturar tesão cozinhado em fogo brando com pitadas de preocupações sociais.

Afinal, o que diriam nossos vizinhos nas redes sociais se nos atravessemos a alcançar tanto dinheiro e sucesso com obras levemente indecentes?

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